No próximo dia 12 de dezembro, celebram-se 49 anos desde que se realizaram as primeiras eleições autárquicas em Portugal. No Alentejo, esse marco encontrou uma região a meio de profundas transformações, entre a esperança aberta pelo 25 de Abril e carências tão básicas como água, habitação, saneamento e acesso à saúde.
Uma reportagem então realizada pela RTP, com assinatura de Joaquim Furtado, mostrou populações trabalhadoras que aprendiam o significado do voto ao mesmo tempo que exigiam respostas para o quotidiano, muitas vezes marcado pelo analfabetismo e por décadas de afastamento do poder local. Entre dúvidas sobre boletins e assembleias e a expectativa de escolher representantes próximos, emergia a convicção de que a democracia só se cumpriria plenamente quando chegasse às aldeias, às ruas sem arruamentos e às casas onde faltava quase tudo. É essa memória de aprendizagem cívica e de afirmação do território que revisitamos, para perceber como o Alentejo se olhou ao espelho às portas das primeiras autárquicas.

Entre as vozes entrevistadas sobressai a diferença que a queda da ditadura trouxe ao espaço público. “Antes do 25 de Abril, as câmaras eram só para os capitalistas”, diz-se, com a ideia de que as portas dos gabinetes se abriram e que já é possível falar de problemas e exigir respostas. “Antes nunca entrei no gabinete do presidente da câmara. Hoje vou lá muitas vezes”, ouve-se.
A reforma agrária atravessa a conversa, ora como conquista, ora como incerteza. O retrato económico é taxativo: 1,1% dos proprietários detinham 51% da terra antes de 1974. Após a revolução, os rurais ocupam e controlam 1,1 milhões de hectares distribuídos por cerca de 450 Unidades Coletivas de Produção, 174 das quais nos distritos de Évora, Portalegre e Beja. A escolha dos autarcas é vista por muitos como determinante para “suster” ou “deitar abaixo” o processo.

Mas o novo calendário democrático choca com décadas de analfabetismo. Em muitos povoados, a mecânica do voto e a própria natureza das autarquias são um enigma. “Não percebo nada disto. Não sei ler”, admitem alguns. “Deve ser para eleger algum presidente que a gente gosta”, arrisca uma moradora, sem distinguir juntas, câmaras e assembleias. A reportagem é clara: o desconhecimento é “quase absoluto”, mais acentuado em meios rurais, embora também presente nas cidades.
O quotidiano confirma que a democracia local terá de começar pelo básico. Faltam água, esgotos, arruamentos e eletrificação. Em certas povoações, a água potável chega “duas vezes por semana”; noutros locais, as pessoas levantam-se às cinco da manhã “para apanhar uma pinga de água num poço”. A habitação é crítica, com famílias numerosas a partilhar divisões exíguas. “Vivo numa casa onde moram oito famílias”, descreve uma mulher, enquanto outra questiona como pagar um infantário que custa 500 escudos por mês.

Os indicadores sociais sublinham a urgência: em 1969 havia, em média, 2.500 habitantes por médico, e a mortalidade infantil rondava os 40 por mil três anos antes da reportagem. No plano cultural e educativo, o Alentejo tinha apenas sete bibliotecas e uma rede de ensino médio e superior exígua face à dimensão da região. A alfabetização insuficiente é o pano de fundo de muitas respostas tropeçadas sobre boletins, assembleias e mandatos.
Ainda assim, o fio da esperança está sempre presente, muitas vezes em forma de poesia popular, cantiga ou palavra ritmada. Há quem peça “pessoas competentes” que olhem para a terra e resolvam o essencial. No fecho, fica a síntese que atravessa toda a peça: “Somos aqueles que mais trabalhamos, somos os que menos valor temos”, mas a ideia de que o voto pode “abrir os olhos” e pôr “o homem da nossa confiança à frente” começa, enfim, a fazer caminho.
Fonte: Arquivo RTP