Camiões do lixo em Évora, quem tem razão no duelo político e o que mostram os contratos públicos

Entre acusações e lixo acumulado na rua, os registos consultados no BASE mostram um padrão antigo de aquisições, alugueres e reparações na frota de RSU.

O tema dos camiões do lixo voltou a incendiar o debate político em Évora, mas desta vez com um problema real à vista de todos. Depois do inusitado “alegado desaparecimento” de um camião, a reunião de câmara da quinta-feira passada, 19 de fevereiro, foi marcada por uma crise operacional assumida pela própria autarquia, com recolha condicionada, lixo acumulado e troca de responsabilidades entre executivo e oposição.

No próprio dia, a Câmara Municipal de Évora admitiu em comunicado que “nos últimos dias, têm-se verificado constrangimentos na recolha de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU)”, explicando que trabalhou “inicialmente apenas [com] uma viatura operacional” e anunciando que “será apresentado na Reunião Pública de Câmara do próximo dia 5 de março um procedimento para a entrada em circulação de quatro novas viaturas”. A notícia chegou até à Antena 1, onde, no programa “Portugal em Direto”, o vice-presidente da autarquia Jerónimo José reforçou a leitura política do caso e apontou responsabilidades ao passado, falando numa “gestão deficitária, seguramente, seja ela do ponto de vista financeiro, [como] do ponto de vista organizacional”.

Na reunião, o debate subiu de tom. João Oliveira (CDU) apontou à necessidade de reforço dos meios próprios e acusou desmotivação nos serviços para justificar o problema, enquanto Patrícia Raposinho (PSD) – que, momentos antes, tinha pedido ao vice-presidente da autarquia que lhe enviasse por e-mail a matrícula do camião que tem estado em Salvaterra de Magos, provavelmente um novo capítulo da sua investigação Miss Marple ao mistério do “alegado camião desaparecido” – puxou o tema para a contabilidade política dos últimos anos. O ponto de choque ficou resumido em duas frases. De um lado, o vereador da CDU afirmou que “nos últimos oito anos foi feito um aluguer de longa duração e foram compradas nove viaturas, para além de alugueres de curta duração que foram feitos”. Do outro, a vereadora social-democrata contrapôs que “nos últimos quatro anos foram contratualizadas duas viaturas”, detalhando que uma era para volumosos e outra para lavagem de contentores.

A pergunta, no fundo, é simples. Quem tem razão?

A aquisição das duas viaturas mencionada pela vereadora do PSD é fácil de verificar, pois foi noticiada no site da própria autarquia, a 5 de julho de 2022 e a 26 de janeiro de 2024, e ambas foram feitas no âmbito do Programa de Modernização de Equipamentos Municipais por um valor superior a 67 mil euros cada. Já para confirmar as afirmações de João Oliveira, recorremos ao portal BASE.

O que mostram os contratos do BASE

A análise dos contratos consultados no Portal BASE para este artigo, cruzada com o comunicado municipal, a reunião de câmara e as declarações à Antena 1, mostra uma realidade menos linear do que a troca política sugere. E mostra também uma nuance essencial, nem tudo o que aparece ligado à higiene urbana corresponde à frota de recolha regular de RSU indiferenciados.

Note-se ainda que a informação disponibilizada pelo portal pode não contemplar a totalidade dos contratos realizados, porque, sendo enviada pelas próprias entidades adjudicantes, pode não estar completa. Além de que, na listagem que se segue constam apenas contratos cujo objeto inclua termos referentes a viaturas de recolha de RSU, sendo que existem outros contratos cujo objeto não era claro quanto ao tipo de viatura e, por isso, não foram incluídos.

Há, pelo menos, três linhas de despesa que se repetem ao longo dos anos (clique na imagem para a ampliar).

A primeira são as aquisições de viaturas. Aqui surgem contratos claramente ligados à recolha de resíduos, como a aquisição de uma viatura de recolha de contentores de RSU de 16 m3 em 2017 (por 130 mil euros), a aquisição de uma viatura de recolha de resíduos de 20 m3 em 2021 (por 138 mil euros) e a aquisição, em 2025, de duas viaturas elétricas N1 para recolha de resíduos orgânicos no âmbito do RecolhaBio, programa do Fundo Ambiental.

A segunda são os alugueres operacionais, e aqui o padrão é particularmente relevante para perceber a crise atual. Os contratos consultados mostram alugueres de viaturas RSU já em 2024 e 2025, incluindo soluções de 121 dias, 365 dias e 3 meses.

A terceira, e talvez a mais reveladora, são as reparações e a manutenção. Os registos consultados mostram reparações de superestruturas e de viaturas RSU com matrícula identificada desde 2018, passando por 2019, 2020 e 2022, e depois contratos mais abrangentes de manutenção de viaturas pesadas e RSU em 2024 e 2025. Ou seja, a necessidade de intervenção técnica pesada na frota está documentada há vários anos.

Compras, alugueres e reparações, três realidades diferentes

Com base nos contratos consultados no BASE e identificados nesta análise, há um volume significativo de despesa em reparações e manutenção de viaturas RSU e superestruturas, num total identificado de 263.738,60 euros. Nos alugueres operacionais de viaturas RSU e viaturas para recolha de lixo, o total identificado ascende a 139.959,99 euros. Já nas aquisições, o universo é mais heterogéneo e inclui tanto viaturas de recolha de RSU como viaturas para biorresíduos, lavagem de contentores e outros meios de apoio, o que obriga a leitura mais fina.

Esta distinção é o ponto decisivo da análise, porque os três tipos de despesa têm efeitos diferentes na capacidade real do serviço. A aquisição de viaturas tende a produzir reforço patrimonial e, em princípio, maior autonomia operacional no médio prazo. O aluguer operacional funciona como mecanismo de compensação imediata, útil para responder a falhas ou insuficiência de meios, mas sem resolver por si só a robustez estrutural da frota municipal. Já a reparação e manutenção, sobretudo quando surge de forma recorrente e em viaturas com vários anos, é um indicador de pressão contínua sobre os equipamentos existentes e de dependência de disponibilidade técnica para manter o serviço em funcionamento.

Lidos em conjunto, os contratos consultados não apontam para ausência de ação administrativa. Apontam, isso sim, para um modelo de gestão muito assente em camadas sucessivas de resposta. Esse padrão é compatível com uma frota envelhecida e com dificuldades de estabilidade operacional, precisamente o cenário descrito pelo executivo atual quando admite avarias em série e incapacidade de resposta plena.

Então, alguém tem razão?

A leitura dos dados permite concluir que há fundamento parcial nos dois argumentos políticos, mas nenhum deles esgota o problema. Os contratos públicos disponíveis no BASE sugerem menos uma disputa entre verdade e mentira e mais uma divergência de enquadramento. Houve despesa e houve resposta administrativa, mas distribuídas por instrumentos diferentes e com eficácia desigual. O resultado visível, em fevereiro de 2026, é uma fragilidade estrutural que já vinha a deixar um rasto documental há vários anos.

  1. A frota envelhecida demonstra o que acontece em toda esta cidade e em vários setores, sobretudo muita falta de olhar para o futuro da cidade, assim ela está…

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