Crónicas da Planície & Outros Sabores: Uma odisseia na Linha do Alentejo (Évora – Pragal)

Quando a promessa de paisagens lindas colide com locomotivas cansadas e atrasos que viraram rotina.

Há viagens que começam muito antes de o comboio arrancar. Começam naquele silêncio húmido das plataformas, nos painéis eletrónicos que anunciam atrasos com uma frieza quase ofensiva, nos olhares cansados de quem já não se irrita — resigna-se. E a Linha do Alentejo, coitada, anda há demasiado tempo transformada numa personagem trágica da ferrovia portuguesa: locomotivas envelhecidas, avarias recorrentes, horários que parecem sugestões poéticas em vez de compromissos reais. Nos últimos meses, voltou sucessivamente às notícias pelas piores razões. Quem nela viaja sabe-o bem. Não é novidade. É rotina.

Na manhã de 12 de Maio, uma terça-feira chuvosa daquelas que deixam o Alentejo mais melancólico e bonito ao mesmo tempo, a viagem entre Évora e o Pragal devia começar às 09h06. “Devia” é talvez a palavra mais usada por quem depende desta linha. O comboio apareceu apenas às 09h26. E quando finalmente entrou na estação de Évora, não houve protestos exaltados nem indignação teatral. Houve apenas aquele silêncio pesado de quem já conhece o desfecho antes da história começar.

É curioso como os atrasos constantes moldam o comportamento humano. As pessoas entram depressa, quase supersticiosamente, como se ocupar rapidamente o lugar pudesse convencer a locomotiva a arrancar. As senhoras da limpeza mal têm tempo de respirar entre passageiros que se apressam a tomar o seu lugar não vá o comboio partir sem eles. Mas o comboio continua imóvel. 09h40. Depois 09h43. Só então parte. Já devíamos estar perto do Pinhal Novo.

Lá dentro, a segunda classe — a única gratuita para quem usa o Passe Verde — tenta compensar o caos com algum conforto. Os bancos são surpreendentemente agradáveis. Há, no entanto, um excesso de verde absolutamente militante: cortinas verdes, chão verde, detalhes verdes. Uma ode cromática à identidade da CP. Só agride verdadeiramente quem, na noite anterior, viu o Benfica perder o segundo lugar do campeonato para “aqueles que trajam de verde”. O futebol, em Portugal, infiltra-se até nos tecidos das carruagens.

Em Casa Branca, às 09h53, dá-se um pequeno milagre ferroviário: o comboio vindo de Beja já lá está. Normalmente, é Évora quem espera. Desta vez não. Pequenas vitórias contam muito na Linha do Alentejo. Partimos às 09h55 e as conversas começam inevitavelmente a girar em torno do atraso. “Foi uma avaria qualquer”, diz alguém. “Está sempre a acontecer, é uma palhaçada”, responde outro. E ninguém discorda.

Há qualquer coisa de particularmente cruel na gestão dos bilhetes para quem viaja regularmente nesta linha. Os lugares gratuitos para portadores de passe só podem ser reservados nas 24 horas anteriores. Nem antes, nem depois com demasiada demora, sob pena de desaparecerem. Há dias em que se consegue lugar sem drama. Noutros, é quase um desporto radical feito entre aplicações que bloqueiam e dedos nervosos. Quem anda nestes comboios desenvolve reflexos próprios de quem tenta comprar bilhetes para um concerto esgotado.

Depois, porém, o Alentejo começa lentamente a fazer aquilo que sempre fez melhor: amansar-nos.

A chuva cai sobre as planícies com uma delicadeza cinematográfica. O verde da primavera explode pelos campos fora, interrompido aqui e ali por manchas amarelas que anunciam o Verão ainda tímido. Há qualquer coisa de quase mágico naquele horizonte infinito, naquela ausência de pressa (o “vagar”) que contrasta violentamente com a ansiedade urbana. Mesmo atrasado, o comboio oferece uma das paisagens mais bonitas do país. Talvez seja essa a perversidade da Linha do Alentejo: irrita-nos profundamente ao mesmo tempo que nos deslumbra.

Às 10h18 passa o revisor. Simpático, cansado, profissional. Há alguns com cara de quem preferia estar literalmente em qualquer outro lugar do mundo, mas nunca descarregam em ninguém a possível frustração que sentem. Na verdade, os revisores parecem já fazer parte desta resistência silenciosa da linha. Sabem lidar com turistas perdidos, passageiros distraídos e até com os inevitáveis episódios de quem quer usufruir de viagens de borla. Já houve expulsões firmes. Nunca desumanas.

No Poceirão o comboio nem pára. E ainda bem. Há momentos em que tudo parece finalmente deslizar. Até o maquinista, pouco depois, anuncia a aproximação ao Pinhal Novo com um entusiasmo quase triunfal. Como quem venceu uma batalha pessoal contra a própria locomotiva. São 10h35 quando chegamos. Um minuto depois já seguimos viagem novamente.

E é precisamente aí, entre o Pinhal Novo e o Pragal, que a paisagem muda de pele.

As planícies abertas começam a encolher perante urbanizações, armazéns logísticos e estradas intermináveis. Primeiro aparece uma quinta isolada. Depois um aterro gigantesco, feio, agressivo, quase obsceno perante a beleza anterior. E aos poucos o Alentejo dissolve-se na margem sul industrial. Até surgir, como um aviso luminoso da realidade, o enorme letreiro do Rio Sul Shopping. O Seixal anuncia-se assim: através do consumo.

Fogueteiro, Foros de Amora, Corroios. O comboio atravessa sem parar. Quem conhece o trajecto começa a arrumar os auscultadores e a procurar mochilas ainda antes do Pragal surgir. São 10h53 quando finalmente chegamos ao destino.

Mas as histórias desta linha nunca acabam numa única viagem.

Há regressos perdidos por excesso de confiança nos atrasos habituais. Há trocas involuntárias entre comboios para Faro e Évora, descobertas antes da última estação comum, Pinhal Novo, por pura intuição e sorte. Há viagens noturnas de autocarro com seis passageiros silenciosos entre Lisboa e o Alentejo profundo porque se perdeu o último comboio do dia. Há FlixBus às quatro da manhã guardados como hipótese futura, quase aventura de festival de Verão.

E há sempre o regresso.

Nesse mesmo dia, o comboio de volta ao Alentejo, previsto no Pragal para as 19h26, chegou às 19h47. Até ao Pinhal Novo segue em “modo cruzeiro”, numa lentidão da locomotiva que não é usual. Teme-se o pior. Semanas antes, estivemos parados quase meia hora no meio do percurso logo após Vendas Novas. Mas, mesmo pausadamente, lá chegamos ao Pinhal Novo. Mais esperas. Mais resignação. Mais aquele sentimento estranho de vidas suspensas entre carruagens antigas e horários falhados. Ainda assim, às 21h05, chega-se finalmente a Évora. E no fundo, apesar de tudo, há um certo alívio coletivo que percorre a carruagem como um suspiro invisível. Chegámos. Outra vez. E, desta feita, foi antes das 21h30. Por estes dias, é uma vitória.

Talvez seja isso que a Linha do Alentejo tenha de mais humano: obriga-nos constantemente a negociar expectativas. Nunca sabemos exatamente quando chegamos, mas quase sempre acabamos por levar connosco qualquer coisa da viagem. Nem que seja a memória daquela chuva sobre as planícies verdes, do cheiro húmido das estações, ou da voz triunfante de um maquinista feliz apenas porque, naquele dia, o comboio conseguiu chegar ao destino sem ter de parar pelo caminho.


Luísa F. Bacalhau
luisa.bacalhau@oalentejo.pt
Crónicas da Planície & Outros Sabores

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