O texto de Henrique Raposo no Expresso, publicado ontem, 4 de março, com o título “As musiquinhas alentejanas que escondem o Alentejo atrás do biombo” escolhe como alvo um certo “pop alentejano” e o seu tom de postal ilustrado, um Alentejo de biombo, confortável para consumo urbano. A crítica, nesse ponto, merece ser escutada: há, de facto, uma indústria de símbolos ligeiros, onde o sotaque se transforma em condimento e a paisagem em filtro, pronta a circular em rádio e redes como se o território fosse apenas cenário.
Mas a partir daí o texto dá um passo perigoso: troca o combate ao estereótipo por outro estereótipo, de sinal invertido. À “fofura bucólica” responde com um Alentejo reduzido ao catálogo das desgraças – pobreza, depressão, suicídio, racismo, radicalismo -, como se a região fosse um corredor estreito onde a vida só sabe caminhar para o abismo. A intenção pode ser a de rasgar a cortina; o efeito, muitas vezes, é o de a substituir por outra, mais escura e igualmente simplificadora.
Não se contesta que a dor existe. Os números, quando bem lidos, não são metáforas. O Alentejo surge recorrentemente associado a taxas de mortalidade por suicídio superiores à média nacional e a desigualdades territoriais que não se resolvem com slogans. Há concelhos onde os indicadores são particularmente inquietantes. Também não se nega a sensação de distância, não apenas geográfica, mas cívica, em relação a serviços essenciais, uma distância que se mede na espera, na resposta efetiva, no tempo que passa antes de chegar.
O que se contesta é a forma como o texto cola tudo isto numa identidade única, como se o alentejano real fosse, por definição, um ser condenado e invisível, e como se a cultura popular, incluindo a música, fosse automaticamente cúmplice de uma operação de encobrimento. É aqui que convém respirar e distinguir.
Em primeiro lugar, a música não é, por natureza, propaganda turística. Pode ser mercadoria, pode ser ruído, pode ser fórmula; e também pode ser denúncia, memória, pertença, trabalho paciente sobre uma língua e uma cadência. O Alentejo sabe-o há muito, das recolhas etnográficas às reinvenções contemporâneas. O problema não é haver canções luminosas. O problema é só haver luminosidade no espaço público, como se a noite não existisse. E isso não se resolve proibindo o sol. Resolve-se abrindo palco à diversidade do que já cá está, e ao que falta chegar.
Em segundo lugar, quando se fala de pobreza, não basta brandir a palavra. A pobreza tem medidas, evoluções, recortes regionais. A realidade é séria; mas o rigor pede mais do que a impressão. Pede contexto, comparação, causalidade, e a humildade de reconhecer que um território não se descreve com um só traço, ainda que esse traço seja verdadeiro.
Em terceiro lugar, a associação apressada entre carência social e “racismo” ou “radicalismo político” é uma generalização que, além de injusta, é intelectualmente preguiçosa. Problemas reais exigem diagnósticos finos. Há tensões associadas a transformações económicas, à precariedade laboral, à chegada de mão-de-obra migrante em sectores específicos; há também responsabilidades de fiscalização e de cadeia de valor que não se resolvem com epítetos. Mas transformar isso numa sentença coletiva sobre “os alentejanos” aproxima-se perigosamente do mesmo mecanismo que o autor denuncia nos “lisboetas”: falar de longe, com a tentação do atalho.
Há uma pergunta que, por ironia, o próprio texto sugere sem a responder: quem beneficia quando o Alentejo é sempre contado como fábula, seja a fábula cor-de-rosa, seja a fábula sombria? Beneficiam os que não querem olhar para o essencial. Planeamento de saúde e saúde mental com meios no terreno. Escola como elevador e não como resignação. Mobilidade que não seja castigo. Habitação que não expulse. Trabalho agrícola digno e fiscalizado. Cultura com espaço para ser mais do que decoração.
O Alentejo não precisa de “musiquinhas” para se esconder, nem de crónicas iradas para existir. Precisa de ser ouvido com tempo e com método. Precisa que se conte o que dói, sim, mas sem reduzir as pessoas ao seu sofrimento. Precisa que se critique o postal, sem transformar a vida num necrológio permanente. Porque uma região não é um biombo: é um corpo inteiro. E um corpo inteiro tem cicatrizes, tem voz, tem futuro, desde que não lhe roubem a complexidade em troca de uma boa frase.