O mais recente sorteio do M1lhão realizou-se ontem, 28 de novembro de 2025, com o código CFS 29716 a ser validado no distrito de Aveiro. No mapa da sorte, porém, o olhar do Alentejo mantém-se desconfiado: por estas bandas, o milhão tarda em aparecer.
É em Évora que a espera começa a ser mais notada. O distrito soma 8 prémios desde o início do M1lhão, num total de 8 milhões de euros, mas não vê sair o prémio desde sexta-feira, 23 de setembro de 2022. Mais a sul, o cenário é ainda mais austero: em Beja registaram-se apenas 3 prémios, no valor global de 3 milhões de euros, e o último data já de 15 de março de 2019. Portalegre foge à regra e teve o último vencedor a 4 de julho de 2025, somando 7 prémios ao longo dos anos. No conjunto, o interior alentejano acumula 18 milhões de euros, longe dos grandes centros urbanos.
O mapa da sorte no Alentejo
O M1lhão é o sorteio suplementar do Euromilhões exclusivo para Portugal. Cada aposta registada recebe automaticamente um código alfanumérico, composto por três letras e cinco números, e o vencedor é determinado por sorteio aleatório de um único código, divulgado pelos Jogos Santa Casa no próprio dia. Em 2025, o jogo sofreu alterações: a partir de 26 de julho, o M1lhão passou a ter periodicidade mensal, realizando-se sempre na última sexta-feira de cada mês, com o primeiro sorteio neste formato realizado a 29 de agosto. Até agora, foram atribuídos 485 prémios em Portugal, num total, obviamente, de 485 milhões de euros.
No contexto desses 485 prémios, o peso dos distritos alentejanos é modesto. Évora, com 8 prémios, lidera a região, seguido de Portalegre, com 7, e Beja, com 3. Em termos absolutos, a planície não fica totalmente fora do radar, mas a distância temporal entre cada vencedor ajuda a construir a ideia de que a sorte “não gosta” de atravessar o Tejo. A realidade mostra, ainda assim, que o Alentejo participa, mas em menor escala, num jogo pensado para abranger todo o território nacional, das ilhas ao litoral mais densamente povoado.
O contraste torna-se mais evidente quando se olha para os distritos do litoral e do Norte. Lisboa lidera destacada, com 100 prémios atribuídos, e o último vencedor registou-se a 11 de julho de 2025. O Porto segue com 70 prémios, Braga com 46, Setúbal com 42 e Faro com 23, enquanto Aveiro – o protagonista da noite de ontem – contabiliza já 28 milhões de euros entregues. Também distritos de dimensão média, como Coimbra (21 prémios) ou Leiria (20), superam largamente os totais alentejanos. O mapa do M1lhão desenha-se assim em torno das áreas mais populosas e das zonas de maior intensidade económica.
Fado, azar ou matemática?
Perante estes números, as perguntas surgem quase inevitavelmente: fado ou mera probabilidade? Será que os alentejanos não têm sorte ao jogo ou trata-se de uma inevitabilidade estatística, resultante da menor densidade populacional e de menos apostas registadas? O imaginário coletivo tende a romantizar o azar, sobretudo quando os intervalos entre prémios se estendem por vários anos. No entanto, o M1lhão é um jogo puramente aleatório, sem qualquer mecanismo que privilegie regiões, perfis ou hábitos.
Do ponto de vista matemático, cada código emitido em Portugal tem exatamente a mesma probabilidade de ser sorteado. A diferença está no número de códigos em jogo. Em distritos onde se registam mais apostas, aumenta o volume de combinações possíveis e, com isso, a probabilidade de o prémio “cair” numa daquelas localizações. No Alentejo, com uma população menos densa e um mercado de jogo mais reduzido, tudo indica que haverá menos códigos a concorrer em cada sorteio. A consequência é simples: maior é a probabilidade de se atravessarem períodos longos sem vencedores.
Ainda assim, Évora ilustra que a região não está ausente do circuito. Com 8 prémios no total, o distrito supera, por exemplo, a Guarda, que conta apenas 3, e aproxima-se de Viseu, que soma 12 prémios, e de Leiria, com 20. O que torna a situação mais visível é o hiato que se abriu desde 23 de setembro de 2022, num contexto em que muitos outros distritos voltaram a ser contemplados entre 2023 e 2025. Porto, Braga, Faro, Setúbal, Aveiro ou mesmo a Madeira e os Açores têm registado vencedores com maior frequência recente.
Beja representa o caso mais extremo do Alentejo. Com apenas 3 prémios atribuídos e o último datado de 15 de março de 2019, o distrito vive a mais longa “seca” de milhão na região. Esta ausência prolongada cruza-se com dinâmicas conhecidas de despovoamento e envelhecimento demográfico, que podem ajudar a explicar um mercado de jogo menos expressivo. Portalegre, ao contrário, quebrou a tendência ao registar um vencedor em 4 de julho de 2025, recuperando visibilidade num ano em que também outros distritos do interior, como Castelo Branco ou Guarda, voltaram a receber o prémio.
Se o padrão parece penalizar o Alentejo, ele não é, contudo, exclusivo da região. Os Açores, por exemplo, somam 5 prémios e não registam vencedores desde 17 de junho de 2022, enquanto a Guarda contabiliza apenas 3 prémios no total, tal como Beja. Já Viana do Castelo registou 4 prémios, com o último atribuído a 27 de setembro de 2024. A geografia do M1lhão mostra, assim, um país em que o litoral denso e urbano concentra a maior fatia das vitórias, mas onde também existem bolsões de menor incidência em várias latitudes.
Com o novo modelo mensal do M1lhão estabilizado e a última sexta-feira de cada mês reservada para transformar um código em milionário, a expectativa renova-se a cada sorteio. No Alentejo, essa espera assume contornos particulares: entre o humor resignado e a curiosidade estatística, a região observa os resultados com um misto de distância e esperança discreta. Até que um novo código seja validado em Évora, Beja ou Portalegre, fica em aberto a questão que ecoa de norte a sul: será tudo apenas azar, ou uma simples questão de números à escala da planície?
Dados: Jogos Santa Casa e Euro-Millions