O Alentejo nas urnas: a geografia da participação nas Presidenciais (2006-2021)

O estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos confirma a queda de participação nas Presidenciais e mostra que, no Alentejo, o padrão não é uniforme: há concelhos muito acima da média nacional e outros claramente abaixo.

A participação nas eleições presidenciais está a descer em Portugal desde a década de 1990 e atingiu, em 2021, o mínimo histórico da participação oficial. O estudo “Abstenção Eleitoral em Portugal: Mecanismos, Impactos e Soluções”, de João Cancela e José Santana Pereira, sintetiza a tendência e lembra que a leitura muda quando se separa o universo dos recenseados: em 2021, a participação global ficou nos 39%, mas foi de 45% entre recenseados em território nacional e pode chegar a 51% numa estimativa “mais próxima da realidade”, descontando eleitores recenseados em Portugal que vivem no estrangeiro.

No Alentejo, este pano de fundo nacional cruza-se com uma geografia que o próprio estudo identifica como decisiva: “a participação em presidenciais é mais elevada nas áreas urbanas e no litoral”, enquanto no interior e em zonas menos densamente povoadas se registam níveis mais baixos.

Quando se olha apenas para os 47 municípios alentejanos, aparecem contrastes que não cabem no clichê do “interior abstencionista”. Há concelhos consistentemente acima da média nacional no período, com destaque para Avis (1,87), Arraiolos (1,43) e Montemor-o-Novo (1,11), seguidos por valores altos em Crato (0,99) e Fronteira (0,98). No lado oposto, surgem sinais claros de menor mobilização relativa em Moura (-1,38), Barrancos (-1,01) e Elvas (-0,93), além de quebras também em Almodôvar (-0,65) e Redondo (-0,59), entre outros. Estes exemplos não descrevem “o Alentejo” como um bloco, descrevem um Alentejo dividido.

O estudo aponta pistas para ler este mapa. A primeira é política: a participação depende da “competitividade percebida do ato eleitoral”. Quando não há recandidatura do Presidente em funções, a mobilização tende a subir; quando a vitória parece antecipada, a abstenção tende a crescer. A segunda é de perceção: apenas 9% dos inquiridos consideram que as Presidenciais são as eleições com maior impacto direto na sua vida, e essa visão é mais frequente entre abstencionistas e votantes intermitentes.

A terceira é social e torna-se particularmente relevante pela estrutura demográfica e territorial: os mais jovens participam menos, enquanto os eleitores com 66 anos ou mais revelam maior propensão para votar sempre. Ao mesmo tempo, a participação é menor entre classes sociais mais baixas e entre quem não tem diploma superior. E há ainda a variável que raramente entra no debate público, mas que pesa: a distância às urnas. O estudo mostra que 79% dos eleitores a menos de 5 minutos dizem votar sempre, contra 46% entre os que vivem a mais de 30 minutos.

Em termos práticos, o mapa alentejano parece refletir uma soma de fatores, alguns empurram para cima, outros para baixo. Onde o envelhecimento e redes locais fortes podem sustentar a participação, a dispersão geográfica, a distância e fragilidades socioeconómicas podem puxá-la para baixo. A conclusão útil, para lá dos números, é simples: se a abstenção é um fenómeno estrutural, o combate também tem de ser, e no Alentejo começa por aceitar que não há uma única história regional, há várias, concelho a concelho.

Dados: Pordata – Fundação Francisco Manuel dos Santos

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