A Ovibeja está de volta para a sua 42ª edição. Durante cinco dias, a feira transforma Beja num mapa vivo do território: há agricultura, vinho, azeite, pecuária, política, investigação, cante, gastronomia, tecnologia, máquinas, memória e festa. Com início marcado para amanhã, dia 29 de abril, o certame volta a perguntar, à sua maneira, que futuro quer o interior para si próprio.
A feira que não cabe numa feira
Sob o mote “Todo o Alentejo deste Mundo!”, a 42.ª edição da Ovibeja junta profissionais, famílias, jovens, crianças, agricultores, empresários, investigadores e visitantes que chegam por razões diferentes, mas acabam dentro da mesma paisagem provisória.
Amanhã, pelas 10h30, a feira é inaugurada com a presença do ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, e prolonga-se até 3 de maio, em Beja, à espera de mais de 100 mil visitantes. Na quinta-feira, 30 de abril, o recinto recebe uma reunião do Conselho de Ministros, sinal de que a feira volta a ser mais do que montra agrícola: é palco político, praça pública e ponto de encontro para um território que raramente aceita ser tratado como nota de rodapé.
Há seis auditórios com colóquios e seminários, demonstrações de máquinas, encontros empresariais, iniciativas para estudantes, atividades para crianças, provas de produtos, concursos pecuários, espetáculos equestres, restaurantes, tasquinhas, street food e música pela noite dentro.
As Terras de Trás-os-Montes são a região convidada, trazendo produtos, artesanato, caretos e pauliteiros, numa aproximação entre territórios de interior que se reconhecem nas mesmas perguntas sobre distância, agricultura, água e futuro. O Brasil marca presença com uma delegação empresarial, enquanto Espanha surge representada em vários setores. A feira continua enraizada em Beja, mas abre janelas para fora sem perder sotaque.
No Espaço Aprender Mais, os mais novos encontram aula do burro, tosquia de ovinos, fabrico de queijo, música, dança, demonstrações caninas, jogos sobre sustentabilidade, literacia financeira, showcookings e outras atividades espalhadas pelo Pavilhão Central, Pavilhão da Pecuária, Pavilhão da Caça, Natureza e Biodiversidade e Quinta Pedagógica. A ideia é simples: mostrar que o mundo rural não é cenário, nem postal antigo. É trabalho, conhecimento, alimento, território e vida.
A pecuária volta a ser um dos centros emocionais da feira, com mais de 400 exemplares e concursos de raças como Campaniça, Merino Branco, Merino Preto, Merino Alemão, Suffolk e porco de Raça Alentejana. No Campo da Feira, as máquinas agrícolas e as novas tecnologias mostram o lado mais técnico do setor. Na Avenida exterior, o Palco Avenida dá relevo ao cante alentejano e, no sábado, 2 de maio, recebe o Comboio do Cante, com mais de 500 cantadores vindos da diáspora alentejana.
A gastronomia, como sempre, não é acessório. Os restaurantes de carnes com Denominação de Origem Protegida, o Solar da Campaniça, a Tenda Gastronómica, os grelhados, as tapas, o queijo, o presunto e os produtos regionais fazem parte da geografia afetiva da Ovibeja. À noite, o Palco Sagres recebe Vizinhos e DJ João Melgueira, Nininho Vaz Maia e DJ Ana Isabel Arroja, Mariza e DJ Diego Miranda, ÁTOA, Goldcobra e KURA. A feira trabalha de dia, canta à tarde e dança quando anoitece.
Rui Garrido e “um local onde todos se sentem bem“
A Ovibeja tem alma festiva, mas não nasceu para ser inofensiva. Rui Garrido, presidente da comissão organizadora, resume essa identidade numa frase que vale como programa: “Faz parte da génese da Ovibeja, do seu ADN, a sua postura reivindicativa e de colocação em cima da mesa das grandes preocupações acerca do setor e também da região”.
Essa dimensão reivindicativa volta a estar presente este ano. A nova Política Agrícola Comum, o acordo Mercosul, a Estratégia Água que Une, a interioridade e os impactos da conjuntura internacional nos custos de produção entram no recinto sem pedir licença à festa. A Ovibeja sabe que o campo também é feito de contas, legislação, combustível, fertilizantes, mercados e água. Sobretudo água.
A edição de 2026 escolhe “Vinho à Prova” como tema central. A expressão tem graça porque joga em duas direções: prova-se vinho, mas também se põe o setor à prova. O Baixo Alentejo foi distinguido como Cidade Europeia do Vinho pela Associação de Municípios Portugueses do Vinho, e a feira aproveita esse contexto para dar centralidade a uma fileira que atravessa dificuldades. Rui Garrido explica que a intenção é “desde logo, provar vinhos”, mas também abrir discussão sobre mercados, agroturismo, gastronomia e futuro económico do setor.
O antigo espaço Terra Fértil, também conhecido como Pavilhão dos Sabores, surge agora com novo conceito, dedicado exclusivamente ao vinho e ao azeite. Provas comentadas, especialistas, enólogos, produtores, apresentações de marcas e showcookings procuram transformar o pavilhão num lugar de experiência, mas também de conhecimento. Não se trata apenas de beber um copo. Trata-se de perceber o que está dentro dele: solo, clima, investimento, risco, marca, exportação e cultura.
A política agrícola terá um dos momentos fortes a 30 de abril, com a discussão sobre a nova PAC e o acordo Mercosul. A organização convidou as quatro confederações agrícolas, CAP, Confagri, AJAP e CNA, para comentarem a intervenção do eurodeputado Paulo Nascimento Cabral. A escolha do formato mostra a vontade de confrontar leituras diferentes num setor onde as respostas fáceis costumam durar pouco.
A água, porém, será talvez o tema mais estrutural. Um ano depois da apresentação da Estratégia Água que Une, Rui Garrido faz uma avaliação seca: “Um ano após a sua apresentação, pouca coisa foi feita”. A preocupação centra-se em duas frentes: a construção de pequenas barragens a sul do Baixo Alentejo, capazes de apoiar pequenos regadios ligados à pecuária, e a interligação das bacias do Tejo e do Guadiana. Sobre esta última, o dirigente critica o calendário demasiado longo dos estudos e avisa que os anos recentes de chuva não apagam a vulnerabilidade da região.
“Este transvase é para nós fundamental”, afirma. A frase tem o peso de quem fala de sobrevivência e não de obra pública abstrata. No Alentejo, a água nunca é apenas água. É permanência, produção, povoamento e capacidade de imaginar o futuro sem estar sempre à espera da próxima seca.
A conjuntura externa também entra no diagnóstico. Rui Garrido aponta aumentos no gasóleo agrícola, nos fertilizantes e nos agroquímicos, considerando insuficientes os apoios anunciados pelo Governo quando comparados com os de Espanha. “Trata-se de uma situação muito extraordinária, que terá que ter apoios extraordinários em tempo oportuno”, sublinha. A frase podia estar num relatório, mas ganha outro alcance dentro de uma feira onde os custos de produção têm rosto, nome e exploração agrícola.
A região convidada, Terras de Trás-os-Montes, surge neste contexto como espelho e companhia. Rui Garrido lembra semelhanças com o Alentejo, desde o clima mediterrânico da Terra Quente Transmontana ao olival e ao amendoal, passando por problemas de interioridade que, em alguns casos, poderão ser ainda mais duros. A Ovibeja olha para Trás-os-Montes e reconhece outra forma de resistência territorial.
Há também Brasil, através de uma delegação empresarial de Lages, no Estado de Santa Catarina, resultado de uma relação de trabalho estabelecida em protocolo de cooperação. A feira alarga a geografia, mas não muda de centro. Beja continua a ser o lugar onde tudo converge.
No fim, Rui Garrido define a Ovibeja com uma clareza que dispensa slogan: “A Ovibeja é, em primeiro lugar, uma feira de agricultura. Para os agricultores. E tem de continuar a ser. Mas não é só isso. É muito mais.” É local de trabalho, conhecimento, lazer e convívio. Ou, como diz o próprio, “A Ovibeja é um local onde todos se sentem bem”.
Vinho à prova, consumidores no júri
Uma das novidades é o concurso “Melhor Vinho da Ovibeja 2026 – Escolha do Consumidor”, que leva visitantes para o júri. A prova realiza-se a 1 de maio, no Pavilhão Vinho e Azeite, com vinhos brancos, tintos e rosés de expositores presentes na feira. A iniciativa aproxima o público de um universo muitas vezes reservado a especialistas, sem dispensar regras, regulamento e prova organolética.
As inscrições decorrem através de formulário online, embora a participação dependa do número de vagas. A entrega dos prémios acontece a 2 de maio, depois do colóquio “Vinho à Prova”, marcado para o Auditório ACOS, com representantes da ViniPortugal, Associação de Municípios Portugueses do Vinho, Comissão Vitivinícola Regional Alentejana e Turismo do Alentejo, e encerramento pelo ministro da Economia, Manuel Castro Almeida.
Modernices: A feira no bolso
A edição deste ano apresenta ainda uma aplicação móvel gratuita para acompanhar a programação em tempo real, consultar o mapa interativo, localizar espaços, receber notificações, ver horários, consultar perguntas frequentes e aceder a informação útil para visitantes. A app permite também comprar bilhetes pelo telemóvel, evitando filas à entrada.
A tecnologia entra assim na experiência quotidiana da feira, não apenas nos discursos sobre inovação. Numa Ovibeja com colóquios, provas, demonstrações, concertos, concursos, oficinas e encontros a acontecer em simultâneo, a aplicação funciona como bússola para um recinto cada vez mais cheio de possibilidades.
IP Beja traz conhecimento e investigação
A presença do Instituto Politécnico de Beja acrescenta à feira uma camada que já não pode ser vista como acessória. A agricultura contemporânea precisa de saber aplicado, investigação, tecnologia, formação e capacidade de transformar problemas concretos em soluções úteis. O IPBeja apresenta-se nesta edição com stand institucional, oferta formativa, projetos de investigação e iniciativas de ligação à comunidade.
Ao longo do certame, a instituição dá a conhecer trabalho desenvolvido em áreas que tocam diretamente os desafios da região. Não é uma presença decorativa. É a afirmação de que o ensino superior, no Alentejo, não pode viver fechado sobre o campus nem a agricultura pode dispensar conhecimento.
Logo a 29 de abril, a II Reunião da Aliança HEROES, integrada na iniciativa Local Stakeholders Network, junta parceiros institucionais, entidades regionais e comunidade académica na Ovibeja, no Edifício Azul. O encontro pretende promover reflexão, partilha de conhecimento e construção conjunta de soluções para o desenvolvimento territorial, com apresentação de iniciativas nas áreas da formação, inovação e criação de valor local.
A 2 de maio, o Colóquio OPEN DAY da Escola Superior Agrária de Beja, subordinado ao tema “Investigação ao Serviço da Agricultura”, leva ao Pavilhão Inovação e Tecnologia projetos desenvolvidos no Instituto. Modernização das ciências agrárias, resiliência climática, sustentabilidade, inteligência artificial e bioindústria surgem como palavras de trabalho, não como ornamento futurista.
Durante toda a feira, o IPBeja participa ainda nas atividades pedagógicas do projeto Aprender Mais, no espaço ACOS+, localizado no Pavilhão Central, com experiências interativas. A ligação aos mais novos é talvez uma das formas mais discretas e importantes de pensar o futuro. Antes de haver agricultores, investigadores, empresários ou técnicos, tem de haver curiosidade.
Todo o Alentejo deste mundo!
A Ovibeja de 2026 faz, assim, uma síntese rara. Mostra animais e algoritmos, azeite e inteligência artificial, cante e georreferenciação, vinho e debate europeu, borrego campaniço e bioindústria, tratores e aplicações móveis. Não porque tudo seja igual, mas porque tudo faz parte da mesma pergunta: como pode um território de baixa densidade continuar a produzir, inovar, atrair pessoas e manter uma identidade reconhecível?
A resposta, durante cinco dias, não surge em forma de tese. Surge em forma de feira. Uma feira com pó, copos, vozes, máquinas, reuniões, concertos, provas, bichos, crianças, ministros, investigadores, agricultores e visitantes. Uma feira que sabe ser popular sem deixar de ser política. Uma feira que, ano após ano, transforma Beja num lugar onde o Alentejo se olha ao espelho e se apresenta ao mundo.
Fontes & Grafismo: ACOS – Associação de Agricultores do Sul, Instituto Politécnico de Beja