Pangea: Julie deixa o circo e será uma das primeiras habitantes do santuário de elefantes no Alentejo

O santuário europeu para elefantes que está a nascer entre Vila Viçosa e Alandroal prepara-se para receber Julie, considerada o último elefante de circo em Portugal.

Julie, o último elefante ligado ao circo em Portugal, vai ser transferida para o santuário de elefantes que está a ser desenvolvido no Alentejo e cuja criação já tinha sido anunciada no ano passado como um projeto pioneiro à escala europeia. A mudança resulta de um acordo alcançado entre a Pangea Trust e o Circo Víctor Hugo Cardinali, num processo que ambas as partes descrevem como voluntário e centrado no bem-estar do animal.

A elefanta chegou a Portugal em 1988, proveniente do sul de África, ainda em idade jovem, integrando desde então o universo circense. Em 2024 foi retirada de atividade, coincidindo com a entrada em vigor da legislação que proibiu a utilização de animais selvagens em circos no país e com a morte da sua última companheira.

O santuário alentejano, implantado numa propriedade com cerca de 400 hectares entre Alandroal e Vila Viçosa, está precisamente vocacionado para acolher elefantes oriundos de circos e jardins zoológicos europeus. O projeto prevê espaços amplos, acompanhamento veterinário especializado e condições destinadas a permitir maior liberdade de movimentos e socialização entre os animais.

Enquanto decorrem os preparativos para a transferência, equipas veterinárias encontram-se já a realizar avaliações clínicas e a planear a viagem de Julie até ao Alentejo. O conhecimento acumulado ao longo de décadas pelos tratadores do circo deverá acompanhar todo o processo de adaptação da elefanta à nova realidade.

Kate Moore, diretora-geral da Pangea, citada em comunicado, considera que o entendimento alcançado segue a filosofia do projeto. “Trabalhar em parceria com os proprietários para encontrar a solução certa é central à forma como operamos, e foi assim que aconteceu com o Circo Víctor Hugo Cardinali”, afirmou. A responsável sublinhou ainda que “as transferências de elefantes são complexas, e o seu envolvimento contínuo é inestimável”.

Além de Julie, o santuário prepara igualmente o acolhimento de Kariba, uma elefanta africana de idade semelhante que vive atualmente isolada num jardim zoológico na Bélgica. Caso ambas as operações avancem sem contratempos, os dois animais poderão vir a partilhar o mesmo espaço, desenvolvendo uma convivência considerada essencial para o equilíbrio social da espécie.

Do lado do circo, a despedida surge envolta em forte carga emocional. Na nota conjunta enviada às redações, Vítor Hugo Cardinali admitiu que “esta não foi uma decisão fácil”, lembrando que Julie “é um membro profundamente querido da nossa família há mais de 30 anos”. Ainda assim, defendeu que a transferência representa “a decisão certa” para o futuro da elefanta.

A artista Joana Vasconcelos, envolvida no processo enquanto Embaixadora da Pangea, destacou também o simbolismo deste momento. “A Julie marca o fim de um longo capítulo, em que os animais selvagens fizeram parte da vida do circo no nosso país”, afirmou, defendendo simultaneamente a continuidade e valorização da tradição circense portuguesa numa nova fase sem animais selvagens. “O meu convite é para olharmos em frente: para honrarmos a extraordinária mestria, a arte e o património cultural que o circo representa, e para apoiarmos estas instituições notáveis no caminho que agora constroem. Vão ao circo. Deixem-se maravilhar. Façam parte desse futuro.

Fonte: Pangea | Foto: Victor Hugo Cardinali

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