A promessa chegou cedo, a execução tarda. O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) está a irrigar o distrito de Évora com 252,1 milhões de euros aprovados em 4.433 projetos, números atualizados a 15 de outubro. No entanto, só 83,3 milhões tinham sido pagos até essa data, perto de 40% do valor contratado no território. O retrato é ambivalente. Há capilaridade e ambição, há setores com obra a andar, há concelhos a dar o exemplo. Falta, porém, transformar a energia das candidaturas em despesa efetiva e benefícios tangíveis para quem vive e trabalha no Alentejo Central.
O peso de Évora no contexto nacional
No tabuleiro nacional, Évora vale cerca de 1% do universo PRR, uma fração inferior ao seu peso demográfico. Em Portugal, contam-se 256.863 projetos, 22,745 mil milhões aprovados, 19,743 mil milhões contratados e 9,288 mil milhões pagos, o que representa 47% de execução sobre o contratado. No distrito, os 252,1 milhões aprovados traduzem 214,1 milhões contratados e 83,3 milhões pagos. Em termos per capita, os números reforçam a distância. No distrito, 1.404 euros contratados e 546 euros pagos por habitante. Na média nacional, 1.909 euros contratados e 897 euros pagos.
Onde está o dinheiro e o que já saiu
A carteira setorial é vasta e alinha com as prioridades nacionais. Investimento e Inovação soma cerca de 40,3 milhões aprovados. Qualificações e Competências vale 39,4 milhões. Cultura absorve 34,7 milhões. Habitação capta 31,6 milhões. Saúde mobiliza 20,7 milhões para 52 projetos. O novo REPowerEU adiciona 21,2 milhões através de 600 microprojetos de energia, sinal de uma transição energética com marca local.
Há áreas de menor expressão financeira, mas com grande granularidade. Eficiência Energética em Edifícios chega aos 6,18 milhões distribuídos por mais de 1.400 intervenções. Descarbonização da Indústria soma 3,2 milhões. No tecido empresarial, 143 projetos de transformação digital indicam que a digitalização prioridade, enquanto 1.870 iniciativas de qualificação profissional mostram a formação como alavanca rápida de execução.
A velocidade de cada componente é desigual. Mobilidade Sustentável já desembolsou 95% dos cerca de 593 mil euros contratados num único projeto de descarbonização do transporte público. Infraestruturas exibe 74% de execução sobre aproximadamente 28 milhões, ainda que com apenas um dos três projetos lançado. Empresas 4.0 está nos 63% pagos dos 7,6 milhões contratados, mesmo com metade dos projetos ainda por formalizar, reflexo de candidaturas em curso. Qualificações anda na casa dos 54% e a Descarbonização da Indústria atinge 61%, dois domínios com ciclos curtos e entregáveis claros.
No lado lento, Cultura libertou apenas 5% do contratado apesar dos 23 projetos e 34,7 milhões aprovados, um sinal de dossiês complexos que exigem obra, licenciamento e contratação pública. A Digitalização da Administração Pública segue nos 14%, o que espelha as dificuldades de modernização organizacional. Saúde avança nos 23%, coerente com o tempo longo de obras e aquisições. Habitação e Serviços Sociais situam-se em cerca de 33% e 42%, valores intermédios num terreno onde os procedimentos são exigentes. REPowerEU apresenta 4% de execução, efeito expectável da entrada recente desta componente.
A geografia do PRR no distrito
A distribuição territorial é tudo menos homogénea. O concelho de Évora concentra 1.597 projetos e aproximadamente 180 milhões, perto de 71% do bolo distrital. A capital puxa investimentos estruturantes que demoram a sair do papel. Resultado prático a meio de outubro. 58,93 milhões pagos, o que corresponde a 42% do valor contratado no concelho. A ambição é alta e a execução já é intermédia, mas o volume de obra por arrancar continua elevado.
Nos restantes concelhos há contrastes e lições. Borba surge como segundo maior destino de verbas, com 17,6 milhões em 345 projetos, mas só 6% executados, arranque lento para quem tem muito a fazer. Reguengos de Monsaraz soma 210 projetos e 7,3 milhões com uma execução de 65%, uma das mais elevadas da região. Mora destaca eficiência. Dos cerca de 1,72 milhões contratados para 90 projetos, 77% já chegaram aos beneficiários. Montemor-o-Novo apresenta 370 projetos e 3,56 milhões, com 53% de execução. Estremoz conta 430 projetos e 6,1 milhões, também com 53%.
Arraiolos evidencia um padrão de microintervenções. 249 projetos, perto de 2,1 milhões, 63% executados, muitas pequenas ações concluídas. Viana do Alentejo soma 127 projetos avaliados em quase 4,9 milhões, mas apenas cerca de 2,8 milhões foram contratados, o que resulta numa execução de 28%. Portel e Redondo, com 1,38 milhões e 7,77 milhões aprovados, estão abaixo dos 30% pagos. Em Alandroal, 117 projetos e 5,96 milhões aprovados, cerca de 1 milhão pago, 19% de execução. Vendas Novas tem 317 projetos e 5,3 milhões, 41% de despesa. Vila Viçosa reúne 245 projetos e 7,2 milhões, 54% de execução, um ritmo saudável.
O mapa revela uma regra implícita. Concelhos com projetos mais pequenos e mais distribuídos executam depressa. Concelhos com grandes empreitadas acumulam procedimentos e atrasos. O equilíbrio entre ambição e capacidade administrativa é decisivo para converter aprovações em obra feita.
A corrida ao prazo
O calendário não perdoa. Falta menos de um ano para a conclusão do PRR, com prazo oficial a 31 de agosto de 2026. Évora tem 252 milhões de euros em causa e uma margem de manobra que se mede em meses e em decisões administrativas. A prioridade é simples. Concluir rapidamente o que está maduro, contratar sem demoras o que está pronto, reprogramar onde o risco de derrapagem é evidente, realocar se necessário para não perder fundos.
O PRR no distrito é uma oportunidade histórica. Está vivo em milhares de projetos, espalha-se por todos os setores estratégicos, chega a todas as geografias. Falta agora o gesto que separa a promessa do legado. Pagar obra, entregar equipamentos, formar pessoas, ligar serviços. Quando as contas encerrarem, será isso que ficará na memória coletiva. Se o Alentejo Central transformou um plano em progresso. Se Évora e os seus concelhos foram capazes de converter a exceção financeira do PRR numa regra de desenvolvimento duradouro.
Fonte: recuperarportugal.gov.pt