A ligação ferroviária entre Vendas Novas e Lisboa está sob pressão. Com 70% da mobilidade do concelho dependente da Área Metropolitana de Lisboa, o município alentejano tornou-se uma autêntica zona pendular da capital, a apenas 56 minutos de Entrecampos. O fenómeno intensificou-se com a introdução do Passe Ferroviário Verde, que por 20 euros mensais permite viagens diárias a preços quase simbólicos. O resultado foi imediato: comboios esgotados e lugares indisponíveis nas principais horas de ponta.
Em declarações ao jornal Público, Valentino Cunha, o autarca cessante da Câmara de Vendas Novas, diz que entre 6 e 10 de outubro, 20 comboios estavam completamente esgotados e outros 13 registavam uma taxa de ocupação superior a 90%. O problema é agravado pelo facto de Vendas Novas ser servida apenas por cinco comboios Intercidades em cada sentido, todos com reserva obrigatória e formados por três carruagens (uma de 1.ª classe e duas de 2.ª).
Valentino Cunha acusa ainda o Governo e a CP de ignorarem “os protestos sobre comboios lotados e as dificuldades dos munícipes”. O autarca defende o reforço do Intercidades Lisboa-Évora com pelo menos mais uma carruagem e sugere ainda a criação de um serviço regional complementar sem reserva obrigatória, apontando o Barreiro como destino alternativo. Em simultâneo, propôs um serviço inter-regional Évora–Entroncamento (via Setil), que permitiria ligações diretas à Linha do Norte.
O autarca sublinha também as deficiências da estação local. Após as obras de eletrificação da linha do Alentejo há 15 anos, a bilheteira, a sala de espera e as casas de banho foram encerradas, tendo sido reabertas apenas as instalações sanitárias e uma máquina de venda automática de bilhetes. A reabertura da sala de espera, essencial para os passageiros que enfrentam atrasos, continua por concretizar.
Ao Público, Valentino Cunha conta que, “numa ação de marketing político”, chegou a desafiar o ministro das Infra-Estruturas, Miguel Pinto Luz, a tentar reservar um lugar no comboio das 7h30 (para Lisboa) ou no das 18h00 (de regresso) usando o passe, prometendo “20 bifanas” caso conseguisse. O convite ficou sem resposta, tendo a única aparente consequência sido um telefonema da vice-presidente da CP perguntando-lhe se havia algum problema com a máquina automática de venda de bilhetes.
O novo presidente da câmara, Ricardo Videira (PSD), garante que vai continuar a luta, embora reconheça que a CP enfrenta falta de material circulante. Para já, admite que o problema não é de procura, mas de oferta. E não prevê uma solução a curto prazo.
Fonte: Público