O Partido Comunista Português volta a colocar a ferrovia no centro da sua agenda política com um conjunto de propostas que pretendem inverter o abandono progressivo das ligações regionais e modernizar a infraestrutura existente. As três iniciativas apresentadas no âmbito do Orçamento do Estado para 2026 incidem sobre a eletrificação da Linha do Alentejo, a criação de novas estações e terminais no eixo Sines–Elvas (Caia) e a reposição dos serviços regionais e inter-regionais retirados nas últimas décadas.
Para o PCP, a ferrovia deve ser “gerida e desenvolvida como um todo”, e não apenas ao serviço das ligações de longo curso ou do transporte de mercadorias. As medidas apresentadas visam, segundo os deputados comunistas, garantir mobilidade às populações e potenciar o desenvolvimento económico regional, em especial no interior alentejano.
Eletrificação e modernização da Linha do Alentejo
A primeira proposta, datada de 30 de outubro de 2025, defende que em 2026 sejam lançados os concursos necessários para a eletrificação e modernização da linha ferroviária entre Casa Branca, Beja e Ourique, incluindo o Ramal de Aljustrel. O documento prevê ainda a elaboração dos projetos de execução da ligação ao Aeroporto de Beja e da concordância entre as Linhas de Évora e do Alentejo, de modo a permitir um serviço direto entre Beja, Évora, Elvas e Portalegre.
Na nota justificativa, o grupo parlamentar comunista considera “inaceitável” o abandono do troço Beja–Ourique/Funcheira, sublinhando que essa ligação é essencial à viabilidade económica da linha e ao aproveitamento dos ramais industriais. O texto recorda que o Programa Regional do Alentejo 2021-2027 previa inicialmente um investimento de 80,6 milhões de euros, posteriormente reduzido para apenas 20 milhões, o que “coloca em risco a realização do investimento”. Para o PCP, é urgente reverter esta amputação financeira e assegurar que os 52 quilómetros entre Beja e Ourique não fiquem por modernizar nem encerrados.
Estações e terminais no eixo Sines–Elvas (Caia)
A segunda proposta, apresentada a 5 de novembro de 2025, centra-se no Corredor Internacional Sul (CIS), também conhecido como ligação ferroviária Sines–Elvas (Caia), defendendo a construção de estações de passageiros e cais de mercadorias em Vendas Novas, Évora e Alandroal.
Os comunistas sustentam que o projeto não deve ser “um mero atravessamento do território”, mas antes um instrumento de desenvolvimento socioeconómico para a região. O documento prevê terminais de carga e descarga destinados aos parques industriais locais e a criação de uma estação no Alandroal, beneficiando as populações privadas de transporte ferroviário desde 1990.
O PCP sublinha a importância de garantir que o eixo Sines–Elvas (Caia) sirva não apenas o transporte internacional, mas também os comboios regionais e as atividades produtivas do interior alentejano. A proposta inclui ainda a definição de um plano para o transporte regional de passageiros, com vista à reativação e ampliação da rede existente.
Reposição dos serviços regionais e inter-regionais
A terceira proposta, datada de 7 de novembro de 2025, propõe que o Governo desenvolva, em 2026, as diligências necessárias junto da CP para repor e reforçar os serviços regionais e inter-regionais nas linhas do Alentejo e do Sul, incluindo a Linha de Sines.
Os deputados comunistas consideram que a reposição destes serviços é “urgente e inadiável”, lembrando que foram retirados por anteriores governos, privando as populações de ligações essenciais. No documento, o PCP defende que a ferrovia deve ser “planeada e desenvolvida de forma integrada e coerente”, salientando que o transporte regional é fundamental para a mobilidade das populações e para a coesão territorial.
Em conjunto, as três propostas traçam uma visão coerente para o futuro da ferrovia no Alentejo: modernizar, integrar e devolver o comboio às populações. O PCP pretende que o investimento público em transporte ferroviário não se limite aos grandes eixos internacionais, mas contribua para fixar população, apoiar a economia regional e reforçar a mobilidade em todo o território do Sul.
Estas propostas são três entre as mais de 2.100 alterações apresentadas ao Orçamento do Estado para 2026, das quais mais de 500 são do PCP. O documento orçamental foi aprovado na generalidade com os votos favoráveis do PSD e CDS, a abstenção de PS, PAN e JPP, e os votos contra de Chega, PCP, IL, Livre e BE.
As votações na especialidade arrancam a 20 de novembro, estando a votação final global agendada para o dia 27.