A recolha de resíduos transformou-se num dos temas mais discutidos em Évora no início de 2026, tanto nas redes sociais como na praça pública. A acumulação de lixo em vários pontos da cidade e as dificuldades operacionais do serviço têm alimentado uma controvérsia política persistente. O atual executivo socialista tem apontado responsabilidades à gestão anterior da CDU, liderada por Carlos Pinto de Sá, sobretudo no que respeita ao estado da frota municipal. Do lado comunista, o vereador João Oliveira tem respondido com intervenções técnicas e detalhadas, procurando demonstrar que o sistema herdado não foi gerido de forma negligente.
Também os vereadores da coligação PPD-PSD/CDS-PP/PPM têm assumido uma postura particularmente crítica em relação à CDU, mantendo um confronto político que já vinha de mandatos anteriores. Já o vereador do Chega, Ruben Miguéis, tem optado por ações mais simbólicas e mediáticas. Há poucos dias divulgou um vídeo nas redes sociais onde colocou placas da CDU em caixotes de lixo atolados como forma de crítica à gestão anterior. Na reunião desta tarde voltou a recorrer a um gesto semelhante: ofereceu ao presidente da câmara um camião do lixo de brincar, numa provocação que foi recebida com desportivismo por Carlos Zorrinho, que respondeu em tom cordial e humorado.
Superado o episódio inicial, a discussão centrou-se num ponto concreto da ordem de trabalhos: a contratação de quatro viaturas de recolha de resíduos através de um acordo-quadro em regime de renting por 24 meses. O vice-presidente Jerónimo José explicou que a decisão resulta da necessidade de dar uma resposta imediata às dificuldades operacionais causadas pelo envelhecimento da frota e pelas avarias frequentes. Segundo o autarca, a rede municipal opera atualmente sete rotas de recolha durante o período da manhã e cinco durante a noite, mas a escassez de viaturas disponíveis tem obrigado a recorrer a soluções improvisadas, incluindo o uso de equipamentos destinados a outras funções.
João Oliveira foi o primeiro a questionar a proposta. O vereador da CDU chamou a atenção para o custo global do contrato, cerca de 738 mil euros para dois anos, sublinhando que o valor por viatura (cerca de 184.500 euros) se aproxima do preço de aquisição de equipamentos semelhantes – comentário a que Jerónimo José respondeu, não numa intervenção direta, mas que foi registada pelos microfones, com “Duas”.
Continuando, Oliveira alertou que a solução agora apresentada pode resolver um problema imediato, mas questionou se o município ficará dentro de dois anos com a mesma capacidade operacional que tem hoje. “A pergunta que quero fazer é se há perspetiva de fazer a aquisição das viaturas que vão ser agora alugadas? Se a própria concessão do caderno de encargo já aponta para essa perspetiva? Qual é que é a perspetiva com que se aponta a possibilidade de aquisição e, particularmente, em que condições? Vai ser por um valor residual? Quais são os critérios para a determinação desse valor residual?”, questionou, acrescentando: “No fim, se as viaturas forem adquiridas, elas são adquiridas por montantes que correspondem àquilo que seria gasto, havendo disponibilidade financeira para a aquisição das viaturas? Se isso for feito no final do contrato do aluguer, em que condições é que vai ser feito?”. Mais tarde, defendeu ainda que o aumento da produção de resíduos e a pressão crescente sobre o sistema obrigam a uma reflexão mais profunda sobre o modelo de recolha utilizado na cidade.
O vereador do PSD Henrique Sim-Sim acompanhou parte das críticas, sobretudo no plano financeiro, mas descartou de imediato a aquisição por serem “viaturas de valor muito elevado”. Segundo afirmou, o município terá de suportar um custo mensal próximo dos 30 mil euros para alugar as quatro viaturas, o que representa um esforço significativo para as contas municipais, sugerindo a redução da duração do aluguer – previsto até 2028 – por forma a permitir a procura de programas de financiamento que ajudem a reduzir os custos. O social-democrata chamou também a atenção para as dificuldades específicas do centro histórico, onde as características das ruas impedem a circulação de viaturas maiores. Nesses casos, disse, têm sido usadas “viaturas com grifa” que obrigam os trabalhadores a retirar manualmente os sacos dos contentores. “São situações de indignidade para os trabalhadores do município”, afirmou.
Na resposta, Jerónimo José insistiu que o executivo se viu obrigado a tomar uma decisão rápida perante a degradação do parque automóvel. O autarca explicou que muitas viaturas apresentam sucessivas avarias e que o recurso ao renting permitirá colocar rapidamente quatro veículos novos ao serviço, evitando custos elevados de manutenção. Segundo a informação recebida pelos serviços municipais, cada viatura de recolha poderá custar na ordem dos 300 mil euros, o que dificulta uma aquisição imediata em número suficiente.
O vice-presidente reconheceu, no entanto, que o sistema atual enfrenta limitações estruturais, sobretudo em algumas ruas do centro histórico onde apenas conseguem circular veículos mais pequenos e onde o desgaste do equipamento é particularmente elevado.
No final da discussão, Jerónimo José revelou que a autarquia está a preparar uma consulta ao mercado para projetar o sistema de recolha de resíduos da cidade para os próximos dez anos, incluindo a possibilidade de novas soluções técnicas. O município prevê ainda testar um projeto-piloto, financiado, de recolha porta a porta em duas freguesias, abrangendo resíduos urbanos, recicláveis e biorresíduos.
Carlos Zorrinho encerrou o debate sublinhando que a decisão agora tomada responde apenas a uma urgência operacional. O presidente da câmara admitiu que será necessário discutir ao longo do mandato a evolução do sistema de recolha e os modelos de economia circular, lembrando que a escolha pelo renting também está relacionada com as limitações de tesouraria da autarquia. “O cálculo de custos entre a possibilidade de compra destas viaturas ou a possibilidade de usar este programa-quadro é mais ou menos similar, mas há uma grande diferença: é que nós temos, no dia a dia, que gerir fluxos de tesouraria, e os fluxos de tesouraria são muito apertados. E, portanto, muitas vezes algumas das soluções e procedimentos por que temos que optar têm a ver com o facto do quadro financeiro da câmara obrigar a fazer uma gestão muito fina dos fluxos de tesouraria”, argumentou.
A proposta foi colocada à votação e o procedimento acabou aprovado, permitindo avançar com a contratação das quatro viaturas que deverão reforçar a frota municipal nos próximos dois anos. Entretanto, o debate político em torno da gestão do lixo em Évora continua longe de terminar.