Metodologia do fact-check às declarações de João Oliveira sobre a segurança em Évora

Num tempo em que os números são usados como armas políticas, o dever do jornalismo continua a ser o mesmo: separar os factos da interpretação e recusar simplificações convenientes.

Há algo inerente a números: são concretos. Claro que pode haver extrapolação de números, manipulação de números, engano no registo de números, ou seja, todo um conjunto de variáveis que podem levar a que existam erros. Todavia, quando falamos de relatórios que englobam várias das principais entidades que regem a nossa sociedade, o senso comum diz-nos que estamos perante análises rigorosas e factuais. Não dizemos que não possam ser alvo de averiguação ou contestação, tudo o deve ser, mas que, inequivocamente, se trata de um trabalho feito com responsabilidade, rigor e integridade.

Isto remete-nos para o Fact-Check que lançámos este fim-de-semana sobre uma declaração de João Oliveira, atual vereador da CDU na Câmara Municipal de Évora e eurodeputado, que, após ser questionado por munícipe – independentemente da afiliação ou simpatia política do cidadão em questão, não deixa de ser um munícipe como os demais – relativamente à posição da CDU que diz que a cidade de Évora é segura, Oliveira respondeu: “Em relação às questões da segurança e das estradas, eu queria dizer o seguinte: não sou eu, nem a CDU, que dizem que Évora é uma cidade segura. É a PSP. É o Relatório Anual de Segurança Interna, o RASI, que é feito pelo Ministério da Administração Interna, com os dados da PSP e da GNR, e da Polícia Judiciária, e do Ministério Público. É o Governo, que tutela todas estas entidades, que diz que Évora é uma cidade segura, com índice de criminalidade muito abaixo da média nacional, inclusivamente na criminalidade violenta.”

Primeira pergunta: por que razão lançámos um fact-check a esta declaração?

A resposta é simples: há uma clara instrumentalização política dos números do RASI pela CDU, através do seu representante na autarquia de Évora, para questionar a opção do Executivo em colocar câmaras de videovigilância na cidade, decisão aprovada numa reunião anterior com os votos a favor de PS, AD e Chega e um voto contra da CDU. Recorde-se que a proposta já tinha sido apresentada há cerca de um ano pelos vereadores do PSD, na altura chumbada pelo voto de qualidade do presidente Carlos Pinto de Sá. Como Oliveira diz, e com toda a razão, os números são “factuais”, mas foram aqui usados para substanciar uma narrativa de que Évora é uma cidade segura e “não precisa de câmaras e sim polícias”.

Ora, essa leitura política é completamente legítima, mas não deixa de ser subjetiva.

Segunda pergunta: o RASI 2025 diz que Évora é uma cidade segura?

Não, o RASI não tira essa conclusão. O relatório incide sobretudo sobre distritos e não somente as capitais, se bem que, naturalmente, é nas capitais que são registadas o maior número de ocorrências uma vez que aí se concentra o maior número de população. E a média de ocorrências em Évora é realmente inferior à da maioria dos distritos portugueses. Mas porquê? Se Évora é um dos distritos com menor população do país, naturalmente terá uma média de ocorrências inferior. Por exemplo, o RASI diz que no distrito de Lisboa se registaram 85.302 ocorrências em 2025. A população residente no distrito de Lisboa, segundo dados do INE à data de 18 de julho de 2025, mas relativos a 2024, era 2.390.715. O Porto tinha 1.860.255 residentes, 57.453 ocorrências. O distrito de Évora tinha 153.430 habitantes, 5.141 ocorrências. Se as ocorrências registadas fossem lidas apenas como proporção face à população residente, Lisboa teria cerca de 3,57 ocorrências participadas por cada 100 habitantes, Évora cerca de 3,35, enquanto o Porto registaria aproximadamente 3,09 ocorrências participadas por cada 100 habitantes. Obviamente, que esta não é a leitura mais correta, uma vez que não equivale a dizer que essa percentagem da população foi vítima de crime, pois o RASI contabiliza ocorrências participadas e não pessoas. Uma pessoa pode estar associada a várias ocorrências, uma ocorrência pode envolver mais do que uma pessoa, pode haver crimes sem vítima individual direta, etc.

Terceira pergunta: o que diz o RASI 2025 em concreto sobre Évora?

Sobre o distrito de Évora, o relatório diz que foram registadas 5.141 ocorrências – em relação a 2024, houve um aumento claro e objetivo de 7,8% – e, no concelho de Évora, 1.598. Metodologicamente, é feito um comparativo relativo a um período de 10 anos. Na altura em que os dados foram divulgados, publicámos um artigo que pode ler aqui.

Quarta pergunta: podemos concluir do RASI 2025 que Évora é uma cidade segura?

Depende da narrativa. Vivi mais de década e meia em Almada e Corroios, junto a bairros considerados inseguros e onde, estatisticamente, pode argumentar-se que há insegurança, mas nunca tive qualquer problema, a não ser um auto-rádio roubado. Vá lá, em 16 anos, tive mais sorte que outros. Se, para a CDU, 1.598 ocorrências registadas no concelho de Évora, mais de quatro ocorrências por dia, é reflexo de uma cidade segura, têm toda a legitimidade para afirmar aquilo que mais lhes convier. Não significa que seja a realidade de outros.

Quinta e última pergunta: porque é que o Fact-Check teve veredicto “Verdadeiro, mas enganador”?

A resposta está implícita nas anteriores. Os dados do RASI 2025 dizem que a média de ocorrências criminosas em Évora é inferior à da maioria dos distritos do país. No entanto, há um inequívoco aumento de ocorrências e, por conseguinte, da insegurança. Se chega ao nível das grandes metrópoles? Obviamente que não, pois, por exemplo, eram preciso mais de 15 Évoras para encher Lisboa. Dizer que Évora “é segura” não é factual, mas sim uma leitura enviesada de números para fins políticos.

Veredicto

Hoje em dia, há uma acentuada desconfiança instalada no seio da nossa sociedade. A realidade é questionada de mil e uma maneiras, e muitas vezes tão desligada do senso-comum e do bom-senso que chega a ser inacreditável. Os agentes políticos da nossa praça são os principais impulsionadores desta realidade e devem ser mais escrutinados do que nunca. Num tempo em que os números são usados como armas políticas, o dever do jornalismo continua a ser o mesmo: separar os factos da interpretação e recusar simplificações convenientes.

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