Segundo noticia o Expresso esta sexta-feira, o Alentejo volta a surgir no mapa da mortalidade padronizada com taxas persistentemente acima da média do país. Entre 2022 e 2024, a média nacional fixou-se em 11,3 mortes por mil habitantes, enquanto Barrancos atingiu 21,9, valor que ilustra um fosso expressivo face a concelhos de baixa mortalidade como Mogadouro, com 9,1. A repetição do padrão ao longo da última década confirma que o problema é estrutural e não conjuntural.
A taxa de mortalidade padronizada estima quantas mortes ocorreriam se todos os municípios tivessem a mesma distribuição etária, permitindo comparar fatores reais de saúde entre territórios. É apurada por triénios para reduzir oscilações e, em 2022-2024, mais de metade dos 62 concelhos acima da média nacional concentra-se nos Açores e nos distritos de Beja e Portalegre.
No interior sul, destacam-se vários municípios do distrito de Beja com resultados desfavoráveis, nomeadamente Barrancos, Vidigueira, Alvito, Cuba e Ferreira do Alentejo. A padronização das taxas elimina o efeito da idade, o que expõe desigualdades de contexto entre territórios. Fatores como rendimentos mais baixos, maior precariedade laboral e menor escolaridade tendem a associar-se a piores resultados em saúde, reforçando diferenças persistentes entre concelhos.
A estes elementos somam-se perfis de risco e doença mais pesados. Em diversas zonas do sul e nas ilhas, observa-se maior prevalência de obesidade, diabetes, hipertensão e consumos de álcool e tabaco. A acessibilidade também pesa: maiores distâncias, oferta limitada de médicos de família e tempos de resposta mais longos dificultam prevenção e seguimento clínico, com impacto na mortalidade. Em Barrancos existe um único médico de família a cobrir cerca de 1400 utentes, e ganham expressão causas como doenças cardiovasculares, pneumonia e cancros do pulmão, cólon e mama.
O quadro alentejano não deve, porém, ser lido de forma isolada. Algarve e arquipélagos partilham padrões de risco elevados, enquanto a metade noroeste do continente reúne muitos dos concelhos com mortalidade mais baixa, beneficiando de maior densidade de serviços, tecido económico mais robusto e níveis médios de escolaridade superiores. O contraste territorial sugere que o código postal continua a condicionar a probabilidade de morrer mais cedo, apesar da cobertura universal do SNS.
Segundo o Expresso, a Direção-Geral da Saúde inscreve a redução destas assimetrias como objetivo até 2030, lembrando que a mortalidade resulta da interação entre determinantes demográficos, sociais, económicos, ambientais, comportamentais e do próprio sistema de saúde. A série por triénios mostra uma ligeira descida da média nacional desde 2013-15, mas a convergência entre regiões está por cumprir.
Para o Alentejo, o caminho passa por prevenção e seguimento ativo das doenças crónicas, equipas de proximidade e articulação com autarquias e setor social em áreas como habitação, transporte e isolamento. A resposta deve ser equilibrada à escala nacional, direcionando investimento para os concelhos mais vulneráveis sem perder de vista Algarve, Açores e Madeira, onde os sinais de risco persistem e exigem a mesma prioridade.
Fonte: Expresso