Alentejo lidera consumos entre alunos, com álcool e tabaco em alta

Relatório regional do ECATD-CAD 2024 confirma prevalências acima da média nacional no Alentejo para álcool, tabaco e vários medicamentos psicoativos.

O novo Relatório Regional do ECATD-CAD, referente a 2024, devolve ao Alentejo um espelho incómodo: entre os alunos do ensino público com idades entre os 13 e os 18 anos, a região surge com o panorama mais gravoso do país. Em praticamente todos os indicadores com substância – do álcool ao tabaco tradicional e eletrónico, passando por outras drogas que não canábis e por tranquilizantes/sedativos – o Alentejo fica acima do total nacional.

O estudo, conduzido com planeamento amostral de 2023 (NUTS então vigentes) e resultados ponderados, inquiriu no Alentejo 1 095 alunos, distribuídos por 82 turmas de 34 escolas. O retrato regional é consistente com o gradiente que o país conhece: Norte e Madeira tendem a registar níveis mais baixos; Alentejo, Algarve e Açores concentram prevalências mais elevadas. E, apesar da descida nacional de vários consumos desde 2019, aumentaram as discrepâncias entre regiões, sobretudo no álcool e no tabaco.

No álcool, a liderança alentejana é inequívoca e, sobretudo, mais arriscada. Quatro em cada dez alunos referem consumo no mês anterior à inquirição; a embriaguez nos últimos 12 meses atinge 27% e o binge nos últimos 30 dias chega a 30%, quase o dobro do total nacional (15% e 17%). O consumo diário ou quase diário (20 ou mais ocasiões no último mês) abrange 8% dos alunos; entre os consumidores atuais, 18% reportam padrão diário. Na prática frequente de binge (três ou mais episódios no último mês), 16% dos alunos alentejanos estão nesse patamar, subindo para 38% quando se observa apenas quem bebeu no último mês. A embriaguez severa frequente mantém números que preocupam: 4% dos inquiridos e 11% dos consumidores atuais.

No tabaco, o padrão repete-se. O Alentejo apresenta as prevalências mais elevadas tanto no cigarro de combustão como no eletrónico. Um dado salta à vista: o tabaco aquecido regista 14% de consumo recente na região, mais do dobro do total nacional (6%) e entre três a quatro vezes o observado no Norte e no Algarve (4%). Ainda assim, há uma luz ténue na curva: o consumo recente de tabaco de combustão desceu 10 pontos percentuais face a 2019, sinal de que as mensagens de redução de danos começam a encontrar eco.

Nas drogas ilícitas, a canábis continua a ser a substância dominante em todo o país. O Alentejo partilha com o Algarve a maior prevalência de consumo recente (9%) e apresenta o consumo atual mais elevado (5%). Embora o Algarve mantenha a dianteira no “ao longo da vida” e nos “últimos 12 meses”, as quedas algarvias entre 2019 e 2024 fizeram encurtar a distância nos “últimos 30 dias”, aproximando a realidade alentejana daquele patamar. Nas “outras drogas que não canábis”, as diferenças são curtas, mas o Alentejo volta a surgir no topo (4% de experimentação; 3% de consumo recente).

O capítulo dos medicamentos psicoativos revela menor variabilidade regional, mas o Alentejo sobressai no uso não-prescrito: 7% relatam consumo de tranquilizantes/sedativos ao longo da vida (face a 4% no Norte, Açores e Madeira) e 4% no caso dos nootrópicos – substâncias que melhoram a performance cerebral e as funções cognitivas, como foco, memória e criatividade – a maior prevalência nacional. A leitura é clara: quando o acesso é percebido como mais fácil e a iniciação é precoce, como acontece no álcool e no tabaco tradicional na região, os consumos tendem a ganhar expressão.

No reverso da moeda, o comportamento sem substância mais mediatizado, o jogo eletrónico, encontra no Alentejo a sua maré baixa. É aqui que menos alunos declaram jogar no último mês, tanto em dias de escola como sem escola, e onde menor é o tempo diário e a prática em base diária (quatro ou mais dias na última semana). Mas o jogo a dinheiro subiu cinco pontos percentuais face a 2019, acompanhando a tendência nacional de maior prevalência deste comportamento.

O relatório fecha com uma convocatória à ação: mais do que fotografar o problema, importa compreendê-lo. “São necessários estudos qualitativos, de âmbito regional” para desvendar os fatores socioculturais que, no Alentejo, intersectam acessibilidade, precocidade e normalização do consumo. A partir daí, políticas públicas integradas: prevenção precoce nas escolas, regulação efetiva da disponibilidade comercial, reforço da literacia em saúde e respostas comunitárias que falem a língua do território. Entre searas e montados, a paisagem pede medida e cuidado; os números, esses, pedem urgência.

Dados: ICAD

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