A regionalização voltou. Não como fantasma académico, não como nota de rodapé constitucional, não como conversa de seminário entre especialistas. Voltou ao centro do debate político, empurrada pelas falhas do Estado na resposta a calamidades, pela evidência de um país territorialmente desequilibrado e pela sensação crescente de que a máquina central continua a chegar tarde, longe e mal a demasiados sítios.
Sempre que este debate reacende, o impulso vem do Norte. Foi assim outra vez, com Pedro Duarte, presidente da Câmara do Porto, a recolocar o tema na agenda pública. Seguiram-se outras vozes, outros editoriais, outros comentários, outros apelos. De repente, a regionalização está em todo o lado. E o Sul, mais uma vez, aparece em surdina.
Não é por falta de razões. O Alentejo tem-las de sobra para estar na linha da frente de uma discussão sobre descentralização e organização territorial do Estado. Tem baixa densidade, envelhecimento, dispersão populacional, défices de acesso e uma exposição muito concreta à fragilidade dos mecanismos de resposta de proximidade. Se há território com interesse direto em discutir poder intermédio, coordenação regional e capacidade de decisão fora de Lisboa, é este.
O que o Sul tem tido menos vezes é uma voz com peso político nacional suficiente para transformar essa necessidade num debate com escala. E é aqui que o momento atual ganha importância.
Carlos Zorrinho, atual presidente da Câmara Municipal de Évora, voltou ontem a defender a regionalização num artigo de opinião publicado no Diário do Sul (e depois reproduzido no seu site pessoal). O texto, “Reparar Portugal”, não é uma conversão de ocasião. É mais um capítulo de uma linha de continuidade política. Em 2012, Zorrinho escrevia na revista Frontline sobre o tema e defendia que “a Regionalização, enquanto prioridade constitucional, tem vindo a ser adiada por um acumular de preconceitos e mal-entendidos.” Em 2019, na Rádio Campanário, reafirmava sem rodeios: “eu sempre fui a favor da regionalização, bati-me arduamente no referendo de 1998. […] Desde o início penso que teríamos um desenvolvimento muito mais equilibrado, uma melhor capacidade de utilizar os fundos de coesão das regiões mais deprimidas e com baixa densidade, caso tivéssemos criado as regiões administrativas”. Em 2026, com o país a discutir tempestades, colapsos de coordenação e proximidade operacional, atualiza o argumento sem o desfigurar e escreve que “a necessidade de coordenação de proximidade é mais um argumento para que a Constituição se cumpra e a Regionalização Administrativa do Continente aconteça.”
Isto importa por uma razão simples. Em política, a consistência vale mais do que a espuma. Há muitos protagonistas que se aproximam de uma ideia quando ela sobe no ciclo mediático e se afastam quando o custo interno aumenta. No caso de Zorrinho, a defesa da regionalização atravessa contextos diferentes e mantém um núcleo estável. Muda o cenário. Não muda a posição.
Em 2012, a regionalização era apresentada como resposta estrutural à crise económica e como alternativa a uma reforma administrativa que ele considerava errada. Em 2019, o argumento deslocava-se para a utilização dos fundos europeus e para a necessidade de um desenvolvimento mais equilibrado. Em 2026, o foco passa para a resiliência territorial e para a capacidade de coordenação perante fenómenos climáticos extremos. O que se vê aqui não é oportunismo temático. É adaptação de uma mesma convicção a problemas diferentes.
Essa coerência, por si só, já merecia atenção. Mas há um segundo dado, mais político e menos biográfico, que torna esta posição particularmente relevante.
Zorrinho não é apenas um presidente de câmara com opinião sobre o tema. É, tudo indica, o autarca em funções no Alentejo com o currículo político mais denso no plano nacional e europeu. Foi secretário de Estado em duas áreas, liderou o Grupo Parlamentar do PS e acumulou uma década no Parlamento Europeu. Essa combinação de Governo, Parlamento nacional e dimensão europeia é rara no universo autárquico alentejano.
Isto muda o peso do que escreve e do que poderia fazer. Quando um autarca com este percurso fala de regionalização, não fala apenas como presidente de município. Fala como alguém que conhece o centro por dentro, conhece Bruxelas por dentro e conhece, agora, a escala municipal por dentro. Fala, portanto, a partir de um lugar que quase nunca existe no Alentejo.
E, no entanto, a crónica saiu no Diário do Sul.
Não está em causa o jornal, a sua história ou a sua legitimidade regional. O problema é outro. Um debate desta natureza, num momento em que a regionalização voltou a ser assunto nacional, não ganha escala se ficar confinado a um espaço mediático que é praticamente invisível para Lisboa e para os decisores que contam quando chega a hora de mexer em arquitetura institucional. O Alentejo não pode querer ser ouvido em matérias estruturais e, ao mesmo tempo, continuar a falar sobretudo para dentro.
Há aqui um paradoxo que merece ser dito sem rodeios. O Alentejo queixa-se, muitas vezes com razão, de centralismo, de distância e de sub-representação. Mas, quando o debate certo aparece no momento certo, continua a faltar uma frente política e discursiva que o projete para o centro da conversa nacional. O Norte, pelo contrário, discute para fora. Intervém para Lisboa. Pressiona. Marca agenda. Cria ruído útil.
O Sul tende a produzir razão sem produzir escala.
É por isso que o caso de Zorrinho pode ser mais do que uma nota de opinião. Pode ser uma oportunidade. Não necessariamente para protagonismo pessoal, mas para algo que o Alentejo raramente consegue fazer de forma sustentada, construir uma posição articulada e politicamente consequente sobre uma reforma do Estado que lhe diz diretamente respeito.
Esse papel exigiria mais do que artigos, ainda que importantes. Exigiria iniciativa política e capacidade de agregação. Exigiria convocar autarcas, académicos, agentes económicos e vozes de diferentes quadrantes para uma discussão com método e proposta. Exigiria, sobretudo, tirar o tema da lógica reativa, só falamos de regionalização quando há tragédia, e colocá-lo numa agenda de médio prazo, com desenho, prioridades e pressão institucional.
Zorrinho tem condições objetivas para isso. Tem currículo, tem rede política, tem experiência europeia e tem uma vantagem adicional num país onde as ligações pessoais continuam a contar mais do que os manuais de ciência política admitem, é amigo pessoal do Presidente da República eleito, António José Seguro. Não é um detalhe menor. Num tema que vive tanto de vontade política como de arquitetura constitucional, ter acesso, influência e capacidade de interlocução pode fazer diferença.
Nada disto significa que tenha de assumir esse papel. Nem que queira. E essa é, precisamente, a parte interessante da equação.
O ponto já não é saber se Carlos Zorrinho é ou não favorável à regionalização. Isso está demonstrado há muito tempo. O ponto é saber se essa posição, agora reafirmada num momento politicamente fértil, se vai traduzir em ação com escala suficiente para tirar o Alentejo da bancada e colocá-lo em campo.