A crise da distribuição de jornais no Interior ganhou dimensão nacional quando a Vasp, única distribuidora de imprensa em Portugal, admitiu, no início deste mês, deixar de assegurar a entrega diária de publicações em oito distritos do país. A reação foi imediata: jornalismo, autarcas e governo multiplicaram declarações sobre coesão territorial, democracia e direito à informação.
A Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo, da qual Marvão faz parte, foi uma das vozes mais firmes. Em declarações à Lusa, citadas por vários órgãos de comunicação social como o Jornal de Notícias, Joaquim Diogo, presidente da CIMAA, sublinhou: “É algo que nos preocupa. Estaremos disponíveis, em conjunto com a tutela [Governo], em conjunto com a empresa, para poder encontrar soluções, para que este serviço se possa manter regular e as pessoas possam continuar a ter acesso aos jornais, às publicações. É algo que nos preocupa muito, o acesso à informação acima de tudo”.
Do lado do Governo, o recado foi dirigido tanto à Vasp como ao resto do mercado. O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, reconheceu o impacto territorial da decisão e lembrou que a empresa opera “como um monopolista” na distribuição de imprensa. Ao mesmo tempo, desvalorizou leituras de pressão política: “não vejo informações dessas como formas de pressão” e avisou que, se o fossem, “era mau caminho”. O governo admite apoiar a distribuição em nome da coesão territorial, mas insiste que qualquer esforço financeiro dos contribuintes “deve envolver sempre mecanismos concorrenciais”. Ou seja, não haverá apoios automáticos e “nenhum operador […] pode tomar por garantido ou […] obter da parte do Governo nenhuma garantia que lhe vai dar nenhum subsídio dessa monta”.
Marvão sem jornais porque assim o quis?
Enquanto o braço-de-ferro entre Vasp e Governo ocupa a agenda mediática nacional, em Marvão a discussão tem outra cronologia. Aqui, o cenário que hoje se apresenta como ameaça para o Interior é realidade há vários anos. “Os últimos postos de venda já fecharam há algum tempo, há três ou quatro anos” e, desde então, “Marvão ficou sem acesso aos jornais diários”, descreveu à Agência Lusa, num artigo republicado pelo Eco a 17 de dezembro, Catarina Bucho Machado, eleita do PS para a Assembleia Municipal e dona de uma mercearia na vila. Se a Vasp avançar com os cortes prometidos noutras regiões, “o problema deixa de ser exclusivo de Marvão e passa a ser comum a uma franja do país”.
O retrato do quotidiano confirma essa sensação de isolamento informativo. Muitos habitantes, sobretudo os mais novos e qualificados, passaram a informar-se online, enquanto uma parte significativa da população mais idosa fica dependente da televisão, da rádio e de conversas de café, sem acesso regular à imprensa escrita. “A população mais idosa gosta muito e necessita para se manter informada”, alertou Catarina Bucho Machado, lembrando ainda os “mais fatores de isolamento”, como a fraca cobertura de telecomunicações em várias zonas do concelho.
É neste contexto que as declarações de Cláudia Maia à Lusa, publicadas no passado domingo e republicadas pelo Observador, ganham particular peso em Marvão. A presidente da Associação Portuguesa de Imprensa (APImprensa) lembra que, se a decisão da Vasp avançar, será “muito grave”, porque um jornal diário que não chega todos os dias perde leitores, assinantes e publicidade. E sublinha que o fim da distribuição em zonas de baixa densidade “nega um direito que está na Constituição, o direito da informação às populações”. “Em causa está a coesão territorial, porque em sítios onde não há informação a circular e não há escrutínio, as populações ficam ainda mais isoladas. Põe-se em causa a democracia”, afirma.
E recorda que, quando foi apresentado, em outubro de 2024, o Plano de Ação para a Comunicação Social, eram quatro os concelhos sem publicações periódicas: Alcoutim (PS), Freixo de Espada à Cinta (PS), Marvão (PSD) e Vimioso (PSD). Depois de uma negociação com o anterior Governo e de um apoio destinado a garantir a distribuição nestes territórios, a solução não foi universal. “Dois deles (Vimioso e Marvão) não estavam interessados e ainda hoje não têm pontos de venda”, assinala Cláudia Maia. O facto de ambos os municípios serem liderados por executivos do PSD introduz, em Marvão, uma dimensão política difícil de ignorar, sobretudo à luz do atual confronto público entre um Governo do mesmo partido e a principal distribuidora de imprensa.
A presidente da APImprensa não se fica pelos números. No mesmo documento, alerta para um fenómeno que também ressoa em concelhos pequenos como Marvão: “para algumas autarquias interessa que não haja jornais, são municípios que têm máquinas de comunicação muito fortes, às vezes máquinas de comunicação muito melhores do que as equipas dos jornais”. Na leitura da associação, as estratégias de comunicação municipal, com boletins, redes sociais e conteúdos institucionais, tendem a substituir a imprensa local, reduzindo o escrutínio independente e permitindo que as câmaras comuniquem “o que querem, sem filtros, sem escrutínio”.
Câmara Municipal de Marvão quer decidir onde, quando e como é que os jornais chegam aos leitores? Parece que sim
Em Marvão, a ausência prolongada de bancas e quiosques cria o cenário perfeito para que esta crítica se torne ainda mais sensível. Quando não há jornal local ou nacional disponível para venda no concelho, qualquer solução futura ganha inevitavelmente peso político. No mesmo artigo de 17 de dezembro, que mencionámos anteriormente, o vice-presidente da câmara, Luís Costa (PSD/CDS-PP), revelou a intenção da autarquia passar a disponibilizar à população, já em 2026, jornais diários e revistas em vários espaços municipais, como a piscina e a Casa da Cultura. A venda direta, explicou, “tem muita logística associada, com as devoluções” e a contratação, pelo que “é mais fácil” a câmara assumir o pagamento do transporte e passar a ter disponíveis as revistas e os jornais nas suas instalações.
A solução alinha, em parte, com as propostas da APImprensa, que defende a compra de jornais para bibliotecas, escolas, espaços públicos e outras infraestruturas coletivas, como forma de promover a literacia mediática. Também a Biblioteca Itinerante de Marvão, que começou recentemente a levar livros e leitura digital a todo o concelho, deverá passar a disponibilizar jornais e revistas, em formato digital. Mas, no caso concreto de Marvão, a questão que se coloca é outra: num território onde não existem pontos de venda privados, a câmara passa a ser, na prática, o principal canal de acesso à imprensa, decidindo onde, quando e como é que os jornais chegam aos leitores.
É aqui que a discussão local se cruza com a política nacional. Quando a APImprensa denuncia autarquias para as quais “interessa que não haja jornais”, e quando um Governo do PSD recusa apoiar diretamente o “monopolista” Vasp sem garantir concorrência, Marvão surge como um caso-limite. De um lado, uma população que há anos vive sem bancas e que, em 2026, continuará dependente de decisões municipais para ter jornais nas mãos. Do outro, um executivo central que promete concurso público internacional para a distribuição, mas que ainda não concretizou a medida, e uma distribuidora que avisa: sem apoios públicos, o interior perde jornais.
No meio, ficam os marvanenses, obrigados a escolher entre a informação online que nem sempre é a mais rigorosa e um acesso à imprensa em papel que, tudo indica, será cada vez mais mediado pelo poder local. Para a APImprensa, o desafio resume-se a uma palavra: “sustentabilidade”. E a advertência final é clara: “sem sustentabilidade não há jornais, sem jornais não há democracia”.
O ALentejo contactou o presidente da Câmara Municipal de Marvão, Luís Vitorino, para obter esclarecimentos sobre a recusa em integrar a solução de distribuição apoiada pelo anterior Governo e sobre o modelo previsto para o acesso a jornais em 2026, mas, até ao momento, não obteve qualquer resposta.