“Alegado desaparecimento” de camião do lixo gera debate e ironia na reunião da Câmara de Évora

Questão levantada por Patrícia Raposinho (PSD), com base em comentários informais, levou a esclarecimentos do executivo e a troca de argumentos políticos.

O episódio ocorreu na mais recente reunião da Câmara Municipal de Évora e quase parecia talhado para integrar o alinhamento de uma das próximas edições do programa de Ricardo Araújo Pereira, Isto É Gozar Com Quem Trabalha, exibido aos domingos à noite na SIC.

Num tempo em que a informação circula com poucos filtros e rapidamente se transforma em certeza, muito por força das redes sociais, um presumível, ou “alegado”, mal-entendido acabou por ganhar palco institucional. Em causa esteve o “alegado desaparecimento de um camião do lixo”, tema introduzido pela vereadora Patrícia Raposinho, eleita pela coligação PPD-PSD/CDS-PP/PPM, que acabou por gerar cerca de dez minutos de debate na reunião do executivo municipal.

A autarca fez questão de sublinhar o carácter prudente da formulação. Queria apenas “perguntar se existe alguma informação sobre isso, ou se realmente é apenas aquele comum comentário que pode surgir. Por isso é que eu referenciei o alegado”, afirmou, enquadrando a intervenção num contexto mais amplo de circulação de informação pouco confirmada.

A questão abriu espaço a leituras políticas distintas. Alexandre Varela, em substituição do vereador da CDU João Oliveira, com um leve travo a ironia, confessou ter ficado “realmente muito preocupado porque um camião de lixo não desaparece”, defendendo que, a confirmar-se tal situação, o caso deveria ser comunicado às entidades competentes, até pelo valor elevado do equipamento.

Patrícia Raposinho respondeu, insistindo no cuidado colocado na pergunta. “Sobre a questão do alegado desaparecimento do camião, e volto a referir, alegado, que foi a primeira coisa que referenciei, aquilo que eu diria é que, de facto, o que estamos a viver a nível de sociedade é uma situação de criação de aparentes verdades”, afirmou, acrescentando que “há um direito à pós-verdade, que é efetivar se de facto existe ou não”. A vereadora frisou ainda que o objectivo era apenas esclarecer os munícipes “se algo é real ou não é real”, lamentando que o tema tivesse sido aproveitado de forma “desajustada, um pouco inglória e pouco elegante”, quando pretendia apenas que o município pudesse “responder em verdade sobre o que realmente se passa com o equipamento da higiene no concelho”.

O tom subiu quando o vereador do Chega, Ruben Miguéis, afirmou que não ficaria surpreendido com um eventual desaparecimento. O que começou num registo quase descontraído rapidamente evoluiu para a enumeração de alegadas situações ocorridas em anteriores mandatos. “Não me admirava que um camião também não desaparecesse, como desaparecem mil e uma coisas nesta Câmara Municipal”, disse, defendendo o afastamento imediato de quem fosse apanhado a prevaricar.

Chamado a esclarecer a situação, o vice-presidente Jerónimo José foi peremptório. “Sobre a questão dos camiões desaparecidos, não tenho notícia”, afirmou, antes de Carlos Zorrinho introduzir uma nota de humor ao comentar que, não fosse o mau tempo, “no final podíamos fazer uma excursão à procura do camião”. Ultrapassado o aparte, Jerónimo José explicou que, dos sete veículos existentes, um se encontra em revisão e outro está avariado, garantindo que não existe qualquer registo de desaparecimento. Acrescentou ainda que, caso alguém tivesse conhecimento de um crime, existe a obrigação legal de o comunicar às autoridades.

O debate ainda conheceria um último momento, com Alexandre Varela a responder diretamente às insinuações do vereador do Chega. O eleito da CDU, que foi vice-presidente da autarquia no mandato anterior, pediu a palavra apenas para um esclarecimento processual, sublinhando que “todos os processos disciplinares que são levantados na Câmara Municipal são instruídos por uma pessoa com qualificações para isso, neste caso um jurista”, cabendo depois ao executivo municipal validar as propostas apresentadas. Recordou ainda que “no mandato passado todos os processos foram aprovados por unanimidade”, envolvendo vereadores de todas as forças políticas.

No final, ficou claro que o camião não desapareceu, não foi furtado e nunca saiu do radar municipal. Tudo não passou de algo “alegado”. Alegado como tantos outros comentários que nascem nas redes sociais, ganham forma no debate político e acabam esclarecidos em poucos minutos de reunião. Um episódio menor, é certo, mas que deixa uma nota curiosa: em Évora, até os boatos já chegam à ordem de trabalhos, desde que devidamente identificados como alegados.

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