As eleições autárquicas de hoje chegam com um fantasma antigo e uma possibilidade nova. Em 1976, o Alentejo ficou pintado de vermelho pelo PCP através da Frente Eleitoral Povo Unido. Hoje, quase meio século depois, há quem admita a hipótese de o mapa alentejano se tingir de outro vermelho, o do Chega. O percurso que separa estes dois momentos diz muito sobre a história política e social do país e pode dizer ainda mais sobre o seu futuro.
1976. O país à procura de chão e Álvaro Cunhal em direto na RTP
Na madrugada de 13 de dezembro de 1976, com 1.356 freguesias apuradas, a RTP avançava totais nacionais provisórios. O PS somava 30,34 por cento, o PPD 28,03 por cento, o CDS 17,83 por cento e a FEPU 16,14 por cento. A participação rondava 61 por cento. Era televisão pública a fazer contas numa democracia que acabara de nascer para o poder local.
Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP, estava no estúdio. Contestou a leitura mediática do momento, acusou a emissão de desvalorizar a FEPU e descreveu mesmo uma avaria no computador que atrasara a divulgação de dados do Sul. Mais do que a querela técnica, interessava o mapa político que o líder comunista desenhou em direto. Cunhal enumerou larga maioria de câmaras alentejanas ganhas pela FEPU, de Alcácer a Vendas Novas, passando por Beja, Serpa, Évora e Montemor-o-Novo. Apresentou esse resultado como resposta do Alentejo às ofensivas contra a Reforma Agrária e à agressividade do ministro António Barreto, então associado à reversão de conquistas do PREC.
Havia ainda duas chaves para ler 1976. A primeira foi a abstenção. Cunhal interpretou os números como sinal de desencanto com o Governo PS e de cansaço perante promessas não cumpridas, apontando a ofensiva contra conquistas constitucionais como as nacionalizações e a Reforma Agrária. A segunda foi a recomposição do voto à direita no Alentejo em torno do PS, beneficiado por desistências do PPD e do CDS em alguns municípios, o que para o PCP desvirtuava a leitura da força socialista na região.
A televisão registou esse quadro e a própria RTP arquivou a emissão especial Poder Local. O excerto com a entrevista de Joaquim Letria a Álvaro Cunhal confirma o ambiente tenso da noite e os totais de referência a meio da madrugada.
Contexto histórico: foram as primeiras autárquicas da democracia, realizadas a 12 de dezembro de 1976, com vitória em votos do PS e empate técnico com o PPD em presidências de câmara. A abstenção foi elevada para a época e o Alentejo destacou-se como bastião da FEPU, confirmando no terreno a força comunista no pós-Revolução.
2025. O novo vermelho e a mutação social do território
Quase cinco décadas depois, o Alentejo já não é sociologicamente o mesmo. A desertificação humana, a concentração agrícola, novas migrações sazonais, o envelhecimento e a desilusão com a promessa do desenvolvimento alteraram o chão onde assentava o voto de esquerda. Entre 2024 e 2025, a região deu sinais consecutivos de realinhamento. Nas legislativas de 2024, o Chega elegeu deputados em Beja e Évora, um choque para quem via a planície como território fidelizado à esquerda.
Em 2025, o fenómeno acentuou-se. Reportagens e análises internacionais retrataram Beja e o Alentejo como símbolos de um basculamento para a direita populista, com explicações que vão da perceção de insegurança e da pressão sobre a habitação à fadiga com décadas de alternância PS-PSD sem resultados palpáveis. A história oral recolhida no terreno mostra jovens e antigos eleitores de esquerda a migrarem para um voto de protesto e ordem.
Se este padrão se projetar hoje nas autárquicas, a região pode coroar o que já se viu nas eleições nacionais. A hipótese do Alentejo ficar dominado pelo Chega deixa de ser contra-intuitiva quando vista à luz dos resultados recentes e da reorganização de identidades políticas locais.
Do extremo esquerdo ao extremo direito. O que significa esta travessia
O eixo que vai do vermelho PCP ao vermelho Chega não é um capricho cromático. É a história de um território que ancorou a democracia em 1976 num projeto de transformação coletiva e que, meio século depois, procura resposta para problemas concretos e acumulados.
Em 1976, o voto comunista no Alentejo foi também uma afirmação de dignidade dos trabalhadores rurais e das cooperativas saídas da Reforma Agrária. A presença de Cunhal na RTP, em confronto com a narrativa oficial da noite e a listar concelhos conquistados, cristaliza essa ideia de bloco social mobilizado e com voz própria.
Em 2025, o voto de protesto que cresce à direita já não nasce das herdades ocupadas nem de assembleias de trabalhadores. Nasce da perceção de abandono, de uma economia local frágil, da pressão migratória na fileira agrícola e de um mal-estar que identifica nos partidos tradicionais a origem e não a solução dos problemas. Esse mal-estar é canalizado por um discurso punitivo e identitário que promete cortar privilégios e recentrar a autoridade do Estado.
Esta travessia tem três implicações para o futuro do país.
- O Alentejo volta a ser laboratório político. Em 1976 testou o poder local como motor de transformação. Em 2025 pode testar a capacidade de um partido de direita radical para governar proximidade, orçamento, limpeza urbana, transporte escolar e atendimento social sem cair na retórica vazia. O escrutínio será imediato.
- A esquerda perde o seu espelho histórico. Se o Alentejo deixar de ser referência, o PCP e o PS terão de reconstruir presença territorial com outra gramática. A memória da Reforma Agrária não chega. É preciso responder a trabalho sazonal, habitação e serviços públicos em baixa densidade.
- O mapa autárquico torna-se menos previsível. A volatilidade alentejana pode contaminar outras regiões periféricas. O voto municipal, mais personalizado, dará ao Chega a prova de fogo: transformar protesto em gestão.
1976 e 2025, lado a lado
Em 1976, a televisão pública foi palco da disputa política em tempo real. Cunhal criticou a hierarquia da informação, acusou irregularidades e reivindicou a leitura do voto alentejano como aprovação da política comunista. A contagem provisória que a RTP exibia a meio da madrugada deixava o PS na frente, mas o PCP reclamava a vitória simbólica do Sul.
Em 2025, a disputa faz-se em múltiplos ecrãs e na velocidade das redes. O significado do mapa que sair das urnas no Alentejo não ficará preso a uma narrativa única. Seja qual for o vencedor, o que está em causa é uma mudança de ciclo num território que já foi bússola da esquerda e que hoje pode tornar-se o barómetro de um novo país.
Fontes: Arquivo RTP