Cinema no Alentejo continua a resistir entre distâncias longas, salas pequenas e comunidades que não desistem

Em muitos concelhos do Alentejo, ver um filme implica mais de 40 km, ida e volta, mas a região somou 179.340 espectadores em 2024 e mantém programação municipal que segura o público.

No Alentejo, o acesso ao cinema continua a espelhar a geografia extensa e a fraca densidade populacional da região, onde há territórios em que ver um filme implica deslocações superiores a 40 quilómetros (Ponte de Sor e Mora são exemplos disso).

De acordo com a edição do Expresso desta sexta-feira, uma análise mostra que, em várias zonas do interior, a oferta depende sobretudo de cineteatros e iniciativas municipais, com programação irregular e pouco diversificada.

O caso de Odemira ilustra bem esta realidade: perante a escassez de sessões, Sílvia das Fadas criou o cinema móvel Fulgor, que durante quatro anos percorreu Odemira, Ferreira do Alentejo e Mértola, mas viu a atividade reduzir-se por falta de equipamento e de “apoio financeiro adequado”. Em declarações ao semanário, a realizadora critica que “sem dúvida que o Estado tem falhado”, defendendo que “dá-se mais importância a festivais que agreguem um grande número de pessoas num curto espaço de tempo do que a uma programação continuada que escuta ativamente as comunidades”.

Ao mesmo tempo, os indicadores estatísticos confirmam uma região que resiste, ainda que à sua escala. Segundo os dados divulgados pelo INE e publicados anteriormente por nós, o Alentejo registou 179.340 espectadores em 2024, com 26 recintos em operação e 8.518 sessões ao longo do ano, num contexto de taxa de ocupação modesta, mas estável, e receitas de bilheteira na ordem dos 941 mil euros.

Estes números revelam um mercado pequeno, mas funcional, que se mantém vivo graças ao papel das autarquias e de equipamentos culturais locais, mesmo quando a exibição comercial desaparece em distritos como Beja. Não é um mercado de massas, mas é um mercado que resiste.

No Baixo Alentejo, a ausência de salas comerciais regulares é acompanhada por críticas às acessibilidades rodoviárias e ferroviárias e por alertas para os riscos de despovoamento. Ainda assim, há públicos fidelizados e um trabalho cultural que não desaparece. Em Odemira, por exemplo, “continua a haver pessoas que nunca foram ao cinema e há um longo caminho para que saibam que o cinema também lhes pertence”, descreve Sílvia das Fadas, sublinhando o impacto comunitário das sessões itinerantes. Para muitos espectadores, “há quem tenha visto filmes projetados em película pela primeira vez no Cinema Fulgor”, um gesto simbólico que revela como o cinema, quando chega, transforma o território.

Entre a falta de investimento estruturado e a persistência das iniciativas locais, o cinema no Alentejo move-se num equilíbrio delicado: um território onde a distância ainda pesa, mas onde as comunidades continuam a provar que o cinema não é um luxo urbano, é uma necessidade cultural.

Fontes: Expresso, INE

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