O mapa das telecomunicações e o mapa demográfico do país raramente coincidem, e o Alentejo é o exemplo mais evidente dessa contradição. Segundo dados recentes da ANACOM, a região apresenta a mais baixa cobertura de redes de fibra ótica em Portugal, com cerca de 77,7 por cento dos alojamentos servidos por FTTH, abaixo da média nacional de 94,7 por cento. No entanto, quando se olha para a utilização da internet, o cenário muda: números do Eurostat para 2024 mostram que 51,7 por cento da população entre os 16 e os 74 anos faz compras online, um valor acima da média portuguesa de 48,5 por cento e suficiente para colocar o Alentejo em terceiro lugar no país, apenas atrás de Grande Lisboa e Setúbal.

Esta combinação de baixa cobertura e elevada utilização desmonta a ideia de que o interior é menos “moderno” ou menos permeável ao comércio eletrónico. Sempre que a ligação existe, os alentejanos usam a internet de forma semelhante às regiões mais urbanas. A diferença está na disponibilidade da rede. A mesma estatística da ANACOM que sinaliza o atraso da fibra revela que o Alentejo é uma das regiões onde a cobertura mais cresce em termos homólogos, o que indica investimento recente na infraestrutura. O ponto de partida, contudo, era tão baixo que, mesmo com esse esforço, a região continua atrás do resto do país.

Um Alentejo a duas velocidades
Em paralelo, os dados do Eurostat sobre acesso à internet em casa ajudam a enquadrar o problema. Portugal continua abaixo da média da União Europeia no total de agregados com ligação fixa, e o contraste interno é evidente: Lisboa e Setúbal surgem no topo, enquanto outras regiões ficam abaixo dos 90 por cento. O Alentejo não aparece como o pior caso, mas a combinação entre menor densidade populacional, distâncias maiores e um tecido urbano disperso torna cada quilómetro de fibra mais caro e menos apetecível para os operadores. É aqui que a desertificação se cruza com a geografia digital. Menos habitantes significam menos clientes potenciais, logo menos incentivo para acelerar a cobertura.
O resultado é um território em que a procura digital é mais dinâmica do que a oferta de rede. Nas cidades médias e nos principais eixos rodoviários, há cada vez mais fibra e serviços de alta velocidade, e aí a percentagem de compradores online aproxima-se da realidade lisboeta. Mas à medida que se avança para aldeias e povoados mais afastados, multiplica-se o risco de exclusão: moradores que querem usar serviços eletrónicos, desde compras a consultas médicas, dependem de ligações instáveis ou puramente móveis, quando existem.
Esta tensão entre investimento concentrado e população dispersa coloca o Alentejo num lugar ambíguo. Por um lado, os indicadores de utilização mostram uma região que acompanha a transição digital e que, em termos de comércio eletrónico, se aproxima das áreas mais desenvolvidas do país. Por outro, a infra-estrutura continua aquém da média nacional, o que pode agravar a clivagem entre centros urbanos regionais e vastas áreas de baixa densidade.
Num país onde se discute recorrentemente o combate à desertificação, os números das telecomunicações funcionam como barómetro silencioso. No Alentejo, não é a falta de utilização que trava a coesão digital, é a insuficiência da cobertura em zonas de baixa densidade. Enquanto a fibra não chegar de forma consistente ao território, a região continuará a viver entre dois ritmos: um Alentejo conectado, que compra e vende online, e outro Alentejo que, mesmo querendo, continua fora desta rede.