O presidente da Câmara Municipal de Évora, Carlos Zorrinho, reafirmou na reunião de câmara da tarde desta quinta-feira, que o município está confrontado com uma situação financeira exigente, com “7 milhões de euros de dívida de curto prazo”, “400 e tal dias de prazo médio de pagamento” e “25 milhões de dívida transitada para este orçamento”, defendendo que o executivo está a tentar gerir os recursos “com a máxima justiça possível”.
Numa intervenção dirigida ao vereador Ruben Miguéis, o autarca sustentou que a câmara não recusa apoios por opção política ou falta de vontade, mas por constrangimentos orçamentais. “Ninguém gostava mais de poder aprovar todos os pedidos que nos são feitos de transportes, de apoio à atividade desportiva, de apoio à atividade cultural, (…) à atividade social”, declarou.
Carlos Zorrinho descreveu como particularmente difícil a recusa de meios logísticos e financeiros a coletividades e instituições. “Custa muito quando fazem uma proposta para eu ratificar de não cedência de um autocarro ao Clube X ou ao Clube Y”, afirmou, acrescentando que também o marcou ter constatado que algumas escolas não participaram numa iniciativa sobre saúde oral, promovida pelo Hospital Militar de Évora em parceria com outras entidades, “porque não tinham autocarros”.
O presidente da autarquia relatou ainda a pressão de credores e fornecedores que reclamam verbas em atraso. “Dói muito receber chamadas, mensagens de pessoas que dizem que a câmara lhe deve 10 mil euros, 15 mil euros, e que isso é muito importante para a sua vida, e é”, disse, sublinhando que nenhum dos responsáveis municipais deixa de querer autorizar pagamentos. “Acha que algum de nós (…) não gostaria de pagar, não gostaria de aprovar?”, questionou.
Na mesma intervenção, o autarca relembrou que a dimensão total dos compromissos financeiros ainda está a ser apurada com a auditoria que está a decorrer e alertou que a câmara tem vindo a detetar novas situações: “Todos os dias descobrimos mais coisas”. Acrescentou esperar ter “em muito em breve” a primeira fase de uma auditoria, para permitir “ter mais consciência disso”.
Perante este cenário, o presidente da Câmara defendeu que não pode assumir prazos de regularização que o município não consiga cumprir. “Não posso enganar as pessoas”, afirmou. E precisou: “Não posso prometer, a toda a gente, que vou pagar, como devia pagar, como seria normal, a 30 dias, (…) é isso que era normal, é isso que é legal. Agora, não posso enganar as pessoas.”
Carlos Zorrinho garantiu, ainda assim, que o executivo procurará reduzir progressivamente os atrasos e introduzir critérios de prioridade nos pagamentos, incluindo uma componente de sensibilidade social. “Faremos o melhor possível para ir reduzindo as taxas médias de pagamento, para ter sensibilidade social nos pagamentos, também para ter critério”, afirmou, rejeitando uma lógica automática de liquidação por ordem de chegada: “Não podia ser que quem primeiro chega, primeiro recebe.”
A intervenção traça o retrato de uma autarquia sob forte pressão financeira, com reflexos diretos no apoio ao movimento associativo, às escolas e a fornecedores, ao mesmo tempo que aponta para uma auditoria em curso como instrumento para clarificar a real dimensão das responsabilidades herdadas e em aberto.