Há números que desenham fronteiras invisíveis. Os distritos de Lisboa, Faro, Setúbal e Porto concentram 71,3% dos residentes estrangeiros, e daí irradia uma geografia litoral que organiza empregos, rendas, línguas e rotinas. Ainda assim, o Alentejo apresenta uma cadência própria. O distrito de Beja, com 37.878 residentes estrangeiros, sustenta quase 68% da presença migrante regional. Évora soma 11.754 e Portalegre 6.170. No conjunto, a região pesa 3,6% do país, o suficiente para impor novas perguntas sobre integração em territórios largos, serviços dispersos e economias sazonais. Em termos relativos ao total nacional, Beja representa cerca de 2,5%, Évora 0,8% e Portalegre 0,4%.

Quem chega vem sobretudo do Brasil, que representa 31,4%, seguido da Índia, de países da CPLP, do subcontinente indiano e da Europa. O perfil é jovem e ativo: 85,5% em idade potencialmente ativa, com destaque para os 18–34 anos (640.914). A AIMA lembra que “residente estrangeiro” é um conceito administrativo: inclui títulos válidos, processos de regularização em curso e autorizações concedidas por regimes específicos. Não é um recenseamento clássico, é um instantâneo da capacidade administrativa, e por isso deve ser lido com rigor e prudência. Em 2024 foram emitidos 218.332 títulos, menos 34% do que em 2023, ano extraordinário pela conversão de manifestações de interesse por Autorizações de Residência CPLP. A revisão da série histórica depurou não comparências a agendamentos, aquisições de nacionalidade e óbitos, fixando o resultado final em 1.543.697.
No motor das concessões, atividade profissional e Autorização de Residência CPLP formam a maioria, espelho de procura laboral e mobilidade lusófona. 2.081 títulos por atividade de investimento tiveram expressão sobretudo urbana e turística. Em proteção internacional, registaram-se 2.677 pedidos e 1.244 autorizações provisórias.
O que isto significa para o Alentejo é uma agenda muito concreta. A habitação que falta onde há trabalho, os transportes que ligam lugares longos, a aprendizagem da língua como acesso à cidadania, as respostas de saúde e educação que acompanham famílias jovens. Beja destaca-se como núcleo robusto, mas Évora e Portalegre pedem soluções finas e territorializadas. A integração não se mede apenas por títulos, mede-se na previsibilidade de uma vida que possa ser vivida.
Há, porém, uma evidência que qualquer um reconhece e qualquer decisor responsável deve admitir: estes são os dados oficiais, não o universo total. A contabilidade da AIMA, por definição, não alcança quem permanece fora do registo, quem entra e sai por rotas informais, quem evita serviços por medo, precariedade ou desinformação. O impacto real da imigração ultrapassa os números captáveis por uma ótica administrativa e exige observatórios locais, parcerias com autarquias, escolas e centros de saúde, e métodos de estimativa que cruzem indicadores indiretos, do mercado de arrendamento ao emprego não declarado. A ausência estatística não equivale a inexistência social. É aqui que a boa política começa: a reconhecer a sombra para melhor iluminar o quadro.
Portugal é hoje mais amplo do que a sua contabilidade. Os números da AIMA não mentem, mas não dizem tudo. Cabe-nos ler o que afirmam, perguntar pelo que omitem e agir sobre o que revelam: no Alentejo, onde a distância é medida em quilómetros e oportunidades, a integração será tão forte quanto a capacidade de transformar presença em pertença.
Fonte: Relatório de Migrações e Asilo 2024, AIMA.