Há ironias que dispensam comentário, mas esta merece reflexão. Um evento concebido para celebrar o Vagar, a escuta, o tempo longo e partilhado, esgotou num ápice, antes que a maioria tivesse sequer percebido quando e como podia reservar lugar. Ontem, 2 de fevereiro, era o dia anunciado para garantir bilhetes. As horas nunca foram claras. O resultado viu-se logo ao final da manhã: carimbo de “esgotado” na plataforma, frustração nas redes sociais e a sensação incómoda de que, afinal, nem todos jogam com as mesmas regras.
O concerto “O Vagar é a cena”, marcado para sexta-feira, 6 de fevereiro, na Arena d’Évora, é o momento simbólico que assinala 365 dias até à abertura oficial de Évora_27 – Capital Europeia da Cultura. Entrada gratuita, mediante reserva prévia. Um gesto que se quis aberto à comunidade, integrado num dia inteiro de programação cultural, da petição para o Dia Nacional do Vagar à instalação urbana na Praça do Giraldo, passando pelo stand-up de Guilherme Geirinhas no Teatro Garcia de Resende.
Na prática, porém, o discurso do acesso universal tropeçou na execução. Desde cedo, a BOL anunciava os espetáculos como esgotados. E gerou-se um mal-estar, que tem rosto e voz. “Os bilhetes não são para todos — são para alguns”, escreve Lúcia Martins, numa denúncia pública que ecoou entre muitos outros comentários. A autora relata tentativas sucessivas de acesso à bilheteira online, contactos telefónicos contraditórios e, por fim, a surpresa habitual: espetáculo dado como esgotado sem nunca ter estado, de facto, disponível ao público em geral. “Isto não é transparência, não é igualdade de acesso, não é respeito”, acusa.

Há também quem veja o copo meio cheio. Augusto Balça assume a frustração pessoal por ter chegado tarde, mas sublinha o lado positivo de ver salas cheias, sinal de vitalidade cultural e de mobilização da cidade. Deixa, no entanto, um aviso que não é novo: a gratuitidade com reserva tende a gerar lugares vazios, fruto do hábito de levantar mais bilhetes do que aqueles que depois se usam. Um vício pequeno, mas recorrente, que distorce a perceção da procura real e penaliza todos.

John Romão, diretor artístico do espetáculo, confirma na sua página de Facebook que a primeira leva de bilhetes “voou em pouco mais de 30 minutos” e garante nova disponibilização online para hoje. Será mesmo? Logo se verá, com vagar ou nem tanto.

O que fica desta história não é apenas a rapidez com que os bilhetes desapareceram, mas a perceção persistente de opacidade. Verdade ou conspiração? Não sabemos. O que sabemos é que, numa cidade que se prepara para assumir um título europeu, a forma como se gere o acesso à cultura é tão importante quanto a qualidade da programação.
Celebrar o Vagar implica coerência entre ideia e prática. Implica processos claros, horários definidos, comunicação rigorosa e respeito pelo público. Caso contrário, o risco é este: falar de tempo longo e partilhado, enquanto se reproduzem velhos reflexos de pressa, desorganização e desconfiança. E isso, para quem se quer Capital Europeia da Cultura, não é um detalhe menor.