Vagar ou flop? A petição do Dia Nacional do Vagar lançada com pompa em Évora há uma semana conseguiu pouco mais de mil assinaturas

Ao fim de oito dias, a iniciativa de Évora para criar o Dia Nacional do Vagar passou a fasquia “útil” das mil assinaturas, mas ficou aquém do arranque estrondoso que a festa parecia prometer.

O Vagar, como toda a boa filosofia, tem um problema crónico: explica-se melhor do que se pratica. E a petição para instituir o Dia Nacional do Vagar é, neste momento, a sua própria metáfora oficial. Após oito dias de vida pública, soma pouco mais de mil assinaturas. Não é um desastre. É um manifesto coerente. Também é, convenhamos, um número que não combina totalmente com a fanfarra de lançamento.

Évora apresentou a ideia com palco, programação gratuita, bilhetes na BOL que causaram algum celeuma, concertos, stand-up comedy e aquela confiança institucional que costuma vir com autarcas, associações e a solenidade dos Paços do Concelho. A cidade começou a contagem decrescente para 2027 como quem abre uma campanha nacional. E, ainda assim, o povo respondeu como quem diz: “sim, sim, gosto muito, depois logo assino”.

Os promotores podem sempre defender que o Vagar não se mede em velocidade. E têm razão. Só que uma petição mede-se, inevitavelmente, em números. A diferença é que, no caso português, os números não servem apenas para alimentar o ego ou para fazer manchetes. Servem para mudar o destino parlamentar do documento.

Convém recordar o básico, que tem pouco de poético e muito de burocrático. O direito de petição existe no artigo 52.º da Constituição e é regulamentado pela Lei n.º 43/90. Traduzido: qualquer petição pode ser apresentada e admitida, desde que cumpra os requisitos formais, mesmo sem multidões atrás. A partir de mil assinaturas, porém, a petição deixa de ser apenas um texto na internet e ganha peso processual: aumenta a visibilidade e impõe uma relação mais séria com o Parlamento, nomeadamente no modo como é tratada e discutida.

Qualquer petição admitida, subscrita por um mínimo de 1000 cidadãos é publicada na íntegra no Diário da Assembleia da República e os peticionários são ouvidos em audição na comissão. Se a petição for subscrita por mais de 7500 cidadãos ou a Comissão aprovar parecer nesse sentido, é apreciada em Plenário da Assembleia.

As petições subscritas por mais de 2500 cidadãos e até 7500 cidadãos são apreciadas pela comissão parlamentar competente, em debate que tem lugar logo a seguir à apresentação do respetivo relatório final pelo Deputado ao qual foi distribuído.

(fonte: parlamento.pt)

E aqui entra a ironia perfeita: a petição sobre o Vagar ultrapassou a barreira das mil assinaturas com a mesma energia de quem estaciona em segunda fila “só um bocadinho”. Cumpriu o mínimo relevante para não ser ignorada. Mas não explodiu. Não se transformou naquele “movimento sem fronteiras” anunciado nos discursos. Não parece ter furado a bolha natural de Évora, da cultura e dos habituais circuitos que já estavam predispostos a gostar da ideia.

Isto torna-se mais evidente quando se compara o palco com o contador. Uma festa com cartaz, com artistas, com conferência e com a lógica de “um ano para a Capital Europeia da Cultura”, é um concentrador de atenção. E, em petições, atenção concentrada costuma converter-se em assinaturas rápidas. Se o arranque resulta em “mil e picos”, a pergunta não é se a causa é má. A pergunta é se a máquina de conversão falhou, se a mensagem é demasiado abstrata para o clique impulsivo, ou se o país está simplesmente ocupado com questões maiores. E, como bem sabemos, está mesmo muito ocupado!

Também há um detalhe cruelmente português. Petições tendem a disparar quando há indignação, medo, escândalo ou uma fatura para pagar. O Dia Nacional do Vagar não tem vilão, não tem urgência, não tem “isto está a acontecer agora”, não ameaça ninguém. Oferece um princípio. Um princípio é elegante. Só não é viral.

Mesmo assim, seria precipitado chamar flop. Chamar flop seria pressupor que o objetivo era dominar a agenda nacional em uma semana. A fasquia mais realista, no imediato, é outra: manter crescimento, chegar a patamares que obriguem discussão em comissão e, se houver ambição séria, mirar um número que dê debate em Plenário. A petição está, por agora, no limbo estatisticamente respeitável e politicamente insuficiente. Um estado que, por coincidência, descreve metade das boas intenções públicas em Portugal.

No fundo, a questão “vagar ou flop?” tem uma resposta pouco dramática e muito útil. É vagar, porque está a avançar. E ainda não é flop, porque não morreu. Mas se pretende ser mais do que um gesto simbólico com fotografia e notas de imprensa, vai precisar de algo que o Vagar não costuma oferecer por si só: ritmo, persistência e repetição. Em Portugal, até para celebrar a falta de pressa é preciso insistir com alguma pressa. É a contradição nacional em estado puro.

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