Évora, contas à lupa: 2024 fecha com tesouraria sob pressão

O novo executivo do PS recebe um município com urgências de caixa para resolver. Prazo médio de pagamentos dispara de 24 dias em 2023 para 114 dias em 2024.

Analisámos os dados mais recentes do Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses, compilados pela Direção-Geral das Autarquias Locais. O relatório, produzido pelo Centro de Investigação em Contabilidade e Fiscalidade do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave com o apoio da Ordem dos Contabilistas Certificados e do Tribunal de Contas, apresentado a 4 de novembro, oferece uma leitura abrangente da evolução financeira do município de Évora ao longo da última década e revela tendências que ajudam a perceber o estado atual das contas municipais.

O enquadramento político é essencial para a leitura fina dos números. Depois de um longo ciclo socialista liderado por José Ernesto d’Oliveira (2002–2013) e a breve transição de Manuel Melgão (maio a outubro de 2013), o município foi governado, entre outubro de 2013 e outubro de 2025, por Carlos Pinto de Sá, à frente da Coligação Democrática Unitária (CDU). Os dados agora publicados fecham a porta a esta longa gerência, passando o testemunho ao recém-eleito Carlos Zorrinho, do PS, que assumiu funções recentemente. O que herda, em termos concretos, o novo presidente? Uma câmara mais leve no passivo estrutural, mas sob forte pressão no curto prazo.

Contas de 2024: saldo negativo e liquidez limitada

A performance económica do município encerrou 2024 com um resultado líquido negativo de 4,59 milhões de euros. Esta quebra coloca Évora entre os dez municípios com piores resultados líquidos a nível nacional, ocupando a 9ª posição do ranking dos desempenhos mais desfavoráveis. A observação do ciclo financeiro desde 2022 mostra um agravamento progressivo dos resultados líquidos. O prejuízo de 1,57 milhões registado nesse ano cresceu para 3,42 milhões em 2023 e disparou para 4,59 milhões em 2024.

Apesar desse resultado negativo, a autarquia conseguiu cumprir formalmente o critério de equilíbrio orçamental previsto no RFALEI (Regime Financeiro das Autarquias Locais e das Entidades Intermunicipais), já que as despesas correntes somadas às amortizações corresponderam a 97,57 por cento da receita corrente cobrada. Ainda assim, a margem positiva de apenas 2,43 por cento evidencia uma folga mínima que deixa a gestão municipal muito vulnerável.

Prazos de pagamento disparam e tornam-se o principal indicador de risco

O indicador mais sensível de 2024 foi o Prazo Médio de Pagamentos. O município registou 114 dias para pagamento a fornecedores, longe do limite de alerta de 90 dias e muito acima dos níveis considerados sustentáveis para o sector. Este é o 6.º pior desempenho a nível nacional e constitui um sinal claro de dificuldades de tesouraria. Sobretudo, surge como uma inversão abrupta da trajetória recente, já que em 2023 o PMP era de apenas 24 dias, após um ciclo de forte correção após a herança severa deixada pelo PS de 526 dias em 2014.

Dívida elevada, embora controlada

O Passivo Exigível (total de dívidas a pagar) ascendia a 60,1 milhões de euros no final de 2024, o 16.º valor mais elevado do país. Apesar da dimensão, este montante representa uma ligeira melhoria face a 2023, ano em que a dívida total era de 60,6 milhões, e substancial melhoria relativamente a 2014, em que o total da dívida ascendia a 81,2 milhões (uma queda acumulada próxima de 26%). A redução, de cerca de 547 mil euros nos dois últimos anos (2023 e 2024), indica algum esforço de consolidação.

No que diz respeito ao Índice de Dívida Total (que compara a dívida com a média das receitas correntes), o último valor disponível, relativo a 2023, situava-se em 118,1 por cento, abaixo do limite legal de 150 por cento. Desta forma, Évora manteve-se dentro dos parâmetros de endividamento previstos para a administração local.

Encargos financeiros em crescimento

Em 2024, o município pagou 1,55 milhões de euros em juros e outros encargos financeiros, o 12.º valor mais elevado entre todos os municípios portugueses. O aumento destes encargos acompanha o esforço contínuo de gestão da dívida e representa um peso significativo nas contas correntes da autarquia.

Receitas fiscais: queda do IMI após redução da taxa

A decisão de reduzir a taxa de IMI de 0,400 para 0,380 por cento teve impacto direto nas receitas municipais. O valor cobrado recuou de 6,10 milhões em 2023 para 5,80 milhões em 2024, uma diminuição de 5 por cento. Embora a medida tenha sido justificada com objetivos de aliviar a carga fiscal sobre os munícipes, a perda de receita contribuiu para acentuar a pressão sobre a tesouraria num ano já marcado por desequilíbrios e custos financeiros mais elevados.

Despesas com pessoal: pressão estruturante e acima da média nacional

O Anuário reforça que, a nível nacional, as despesas com pessoal são a rubrica com maior volume de pagamentos e maior peso na despesa total das autarquias. Em 2024, representaram 31 por cento da despesa total paga em média nacional, com crescimento generalizado em 304 municípios. O documento sublinha ainda que estas despesas incluem apenas a estrutura dos serviços municipais, excluindo empresas municipais e serviços municipalizados.

No caso de Évora, a despesa com pessoal assume um peso de 43,9 por cento da despesa total paga, claramente acima da média nacional. O município surge em 24º lugar onde o peso das despesas com pessoal é mais elevado. Este indicador ajuda a explicar parte da pressão orçamental verificada em 2024, demonstrando que a estrutura de custos associada ao quadro de pessoal deixa pouco espaço para ajustamentos e reduz a margem disponível para investimento. De referir que, em 2014, este valor era de 34,6 por cento.

Menos dívida, mas uma tesouraria em alerta

O panorama traçado pelo Anuário Financeiro de 2024 revela um município com dívidas controladas e abaixo dos limites legais, mas com sinais preocupantes de desequilíbrio operacional e de fraqueza de liquidez. A combinação de resultados negativos, pressão nos prazos de pagamento, aumento dos encargos financeiros e redução de receitas fiscais coloca a tesouraria municipal sob forte tensão.

É neste contexto que o novo executivo do PS assume funções. A dívida herdada é significativamente mais baixa do que a herdada pela CDU em 2014, mas o estado das contas correntes, a urgência de liquidez e os compromissos acumulados configuram um desafio imediato que marcará os primeiros passos da nova gestão autárquica.

Entre a prudência financeira e a exigência política, o futuro próximo dirá se Évora consegue manter o equilíbrio delicado entre contas certas e capacidade de resposta aos cidadãos. O legado da CDU é de contenção; o teste do PS será o da vitalidade.

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