Há algo de poeticamente irónico na forma como Carlos Zorrinho, na sua primeira crónica após tomar posse como presidente da Câmara Municipal de Évora (publicada hoje no Diário do Sul), promete manter “pensamento crítico” e, no mesmo fôlego, compromete-se a não falar de temas ligados ao cargo. É o tipo de frase que soa bem em papel, mas que não resiste a um simples teste de coerência: é possível pensar criticamente sobre o mundo sem tocar no poder quando se é o próprio poder?
Zorrinho promete não escrever sobre a sua função institucional após tomar posse, mas logo admite que a experiência diária vai influenciar os temas. Fica um pé dentro, outro fora. E, logo a seguir, a crónica torna-se num ensaio moral sobre a importância da consciência e da informação num mundo dominado por algoritmos. Uma espécie de sermão digital sobre o valor do discernimento. Tudo certo, se não viesse assinada por alguém que, dias antes (apesar da crónica ter sido escrita antes da tomada de posse), se sentou na cadeira onde as decisões, como as relacionadas com contratos com a comunicação social local, são tomadas.
Já na tomada de posse da passada sexta-feira, o autarca eleito estendeu o elogio: prestou “homenagem à comunicação social de proximidade”, exaltando-a como ponte entre eleitos e eleitores, garante de transparência e “espelho da pujança do desenvolvimento”. Bonitas palavras, que soam ainda mais cândidas quando confrontadas com a realidade concreta do jornalismo regional.
Questionar se no Alentejo há “jornalismo” é quase heresia. Mas é uma pergunta necessária. Porque o que se faz, regra geral, nos órgãos de comunicação social da região está mais próximo de boletins institucionais do que de jornalismo enquanto conceito — entendido como contrapoder, vigilância e escrutínio do poder político, económico e social. A maioria sobrevive graças aos contratos e anúncios pagos pelas próprias instituições que deviam fiscalizar.
O Portal Base é implacável com a poesia: o Diário do Sul — jornal histórico, sim, mas também albergue para o cronista que agora preside à câmara — recebeu mais de 220 mil euros em contratos por ajuste direto desde 2009, sendo mais de 150 mil euros nos últimos dez anos, só da Câmara Municipal de Évora — e na lista encontram-se várias outras entidades. Difícil imaginar liberdade editorial quando a sobrevivência depende do próximo despacho camarário.
O resultado está à vista: páginas e capas povoadas por fotos de grupo, inaugurações e comunicados. O jornalismo de proximidade transformado em jornalismo de cortesia. O Diário do Sul, com mais de 50 anos e 15 mil edições, é um símbolo dessa contradição: honra o passado, mas vive num presente onde o jornalismo, como prática de escrutínio, quase desapareceu.
Os exemplos multiplicam-se. Quando, a 4 de setembro de 2025, a Agência Lusa revelou que o mandatário autárquico do Chega em Vendas Novas fora detido por suspeita de atear fogos, a notícia teve eco nacional no dia seguinte, com Correio da Manhã e Jornal de Notícias a darem-lhe destaque de capa. No Diário do Sul, a história surgiu apenas a 8 de setembro, reduzida a um título genérico: “Incêndios: GNR detém suspeito de atear fogos em Montemor-o-Novo.” Nem uma linha nesta chamada de primeira página sobre o envolvimento político, que apenas folheando o jornal se revelaria numa réplica do texto da Lusa. Um apagamento simbólico, tão eficiente quanto o silêncio.
Há, claro, quem argumente que o jornalismo regional cumpre um papel de coesão comunitária, de proximidade, de partilha de boas notícias. Verdade. Mas quando essa proximidade se converte em dependência financeira e editorial, deixa de ser jornalismo e passa a ser assessoria involuntária.
O jornalismo, recorde-se, é o espaço onde o poder é confrontado, não o palco onde posa para a fotografia. E, por mais boa vontade que haja nos discursos e nas crónicas, enquanto a comunicação social do Alentejo continuar a viver de ajustes diretos e a reproduzir comunicados, continuará a ser aquilo que é: um eco bem-posto do poder, mas raramente a sua voz crítica.
No fundo, é como na crónica de Zorrinho: muito “pensamento crítico”, pouca prática.