Monsaraz reencontra José Cutileiro na apresentação de um clássico da antropologia

Reedição de “Ricos e Pobres no Alentejo” devolve à vila medieval um dos mais marcantes retratos sociais do Alentejo rural.

Monsaraz volta hoje, 15 de dezembro, a ocupar lugar central no pensamento antropológico com a apresentação do livro “Ricos e Pobres no Alentejo”, de José Cutileiro (1934-2020). A sessão, promovida pelo Município de Reguengos de Monsaraz, assinala a reedição de uma obra publicada originalmente em 1971 e considerada um clássico da antropologia portuguesa e europeia, agora relançada pela Imprensa Nacional e pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo. De acordo com o comunicado, a escolha de Monsaraz para acolher o evento sublinha a ligação profunda entre o território e o trabalho do antropólogo.

Foi nesta vila alentejana que José Cutileiro realizou, entre 1960 e 1967, o trabalho de campo que esteve na origem da sua tese de doutoramento na Universidade de Oxford, intitulada “A Portuguese Rural Society”, posteriormente traduzida e publicada em Portugal como “Ricos e Pobres no Alentejo”. No livro, Monsaraz surge sob o nome fictício de Vila Velha, mas o retrato social traçado assenta numa observação direta e prolongada da comunidade, num dos primeiros estudos antropológicos detalhados sobre uma sociedade rural portuguesa.

A obra descreve com rigor a estrutura agrária tradicional, marcada pelo peso dos grandes proprietários e pela dependência económica dos trabalhadores rurais, analisando a estratificação social e as dinâmicas de poder entre proprietários, rendeiros e assalariados. As relações de trabalho sazonais nas herdades em redor da vila e o impacto dos ciclos agrícolas na vida quotidiana das famílias são apresentados como elementos estruturantes de uma organização social profundamente desigual, mas estável durante décadas.

Para além da economia e das hierarquias sociais, o estudo evidencia a vitalidade da vida comunitária, centrada na vila, na igreja e noutros espaços de sociabilidade onde se construíam reputações, alianças e conflitos. Segundo a Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz, revisitar esta obra é reconhecer a atualidade de um retrato social cuja profundidade se deve, em grande medida, ao contacto próximo de José Cutileiro com os habitantes de Monsaraz, num tempo em que a antropologia se fazia com escuta paciente e presença prolongada no terreno.

Fonte & Foto: Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz

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