O artigo que se segue expressa somente a opinião do seu autor.
Pânico instalado. Esse foi o efeito, e dificilmente não foi também o objectivo, do comunicado enviado pela Vasp no dia de ontem, anunciando que a partir de janeiro iria passar a distribuir jornais apenas uma vez por semana em vários distritos do Interior, incluindo os três distritos alentejanos. A partir daí seguiu-se um rol de reacções quase pós-apocalípticas a “exigir” que o Governo resolva o problema, ou seja, pague à Vasp, uma empresa que detém o monopólio da distribuição de jornais em Portugal, apesar de ninguém perceber muito bem porquê quando existem outras empresas de distribuição que podem cumprir o requisitado.
Um monopólio bem tratado
A história recente também não ajuda a perceber tanta complacência. A Vasp foi, durante anos, uma empresa ligada a grandes grupos de media, da Impresa à Cofina. Hoje é detida pela Palavras de Prestígio, empresa do Grupo Bel de Marco Galinha, antigo presidente do Conselho de Administração da Global Media Group, em tempos dona do Diário de Notícias, Jornal de Notícias, O Jogo e TSF, que deixou esses órgãos à beira da rutura até os ter tido de vender, à exceção do DN, que passou por sucessivos cortes nos últimos anos, foi transformado em semanal e depois voltou a diário, exceto ao fim de semana, num total desespero para manter o histórico jornal vivo.
A Palavras de Prestígio comprou em 2024 os 50 por cento que a Cofina detinha na Vasp por 4,5 milhões de euros. Segundo informação da Racius, plataforma online que compila dados públicos sobre empresas, em 2024 a Vasp Distribuição e Logística (sem contar com a Vasp Premium, que tem registo separado) registou receitas globais de 164,3 milhões de euros, quase todas provenientes de vendas no mercado interno. As despesas operacionais somaram 155,0 milhões, concentradas em compras de bens e contratação de serviços, num modelo de elevada rotação e baixa margem, em que a maior parte das receitas é absorvida pelos custos correntes. Deste equilíbrio resultou um lucro líquido de 172,8 mil euros. Não é um grande lucro, mas é lucro.


O drama que os números desmentem
Do lado das reacções, desde sindicatos a reguladores, o discurso foi quase unânime: é impensável limitar o acesso à imprensa em qualquer zona do país. E têm razão. A imprensa nacional, regional e local é imprescindível em democracia. Mas a ideia de que a imprensa em papel é hoje o grande combatente da iliteracia, do analfabetismo e da desinformação não é suportada pelos números.
Segundo dados da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação (APCT) sobre a circulação paga no terceiro trimestre de 2025, relativamente aos principais diários nacionais não desportivos, o Correio da Manhã vendeu, em média, 32.559 jornais por dia em todo o país. O Diário de Notícias vendeu 893 exemplares (não é erro, pelo menos não da nossa parte). O Jornal de Notícias vendeu 15.677 e o Público 9.211. O semanário Expresso vendeu 33.316 jornais por semana. Repito: são dados a nível nacional. E sabemos bem que os grandes centros urbanos são onde se vendem mais jornais.
Também o INE confirma a tendência de queda. Num estudo de 2022, de abrangência nacional, lia-se que “A leitura de jornais e revistas foi referida como uma atividade regular (todos ou quase todos os dias) por 35,6% da população dos 18 aos 69 anos, o que corresponde a uma diminuição de 19,4 p.p. comparativamente a 2016 (55,0%) e de 17,5 p.p. relativamente a 2011 (53,1%). Verifica-se, igualmente, uma tendência de decréscimo dos que leram pelo menos uma vez por semana (22,8% em 2022, 25,3% em 2016 e 29,0% em 2011).”

O mesmo estudo acrescenta que “Relativamente à leitura regular de periódicos (todos ou quase todos os dias), os homens leram mais jornais e/ou revistas (41,1%) do que as mulheres (30,4%), assim como as pessoas dos 35 aos 54 anos (40,6%) seguidas das que se encontram entre os 55 e os 69 anos (34,7%). As pessoas com ensino superior também leram mais este tipo de periódicos (47,0%), assim como a população empregada (39,2%) e a população que se situa no 4.º (41,3%) e no 5.º quintil (50,9%) da distribuição do rendimento. A intensidade de urbanização do local de residência é também uma variável diferenciadora, revelando que a leitura regular de jornais e/ou revistas é mais elevada nas áreas urbanas (37,5% e 31,5% nas Áreas Predominantemente Urbanas APU e Áreas Mediamente Urbanas AMU, respetivamente) do que nas rurais (26,6% nas Áreas Predominantemente Rurais APR).” Mais uma vez, dados nacionais.
Ou seja, o drama em torno da distribuição de jornais no Interior convém à Vasp, mas choca de frente com a realidade de uma quebra estrutural na leitura de imprensa em papel, em especial fora dos grandes centros urbanos.
Interior em sobressalto e autarcas em fila
Além das entidades nacionais, várias estruturas regionais apressaram-se a reagir e a apontar o dedo ao Governo. Como presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central (CIMAC), Carlos Zorrinho não respondeu às nossas questões, mas declarou à agência Lusa tratar-se de “uma enorme preocupação, porque o acesso universal à informação deve ser um compromisso para manter e o contrato assinado pela VASP com o Governo garante isso”. Numa reação relativamente ponderada, defendeu ainda que, se a Vasp “não está em condições de o garantir, é preciso reforçar com essa empresa ou com outra, porque esta é uma prioridade absoluta”.
Já o presidente da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo (CIMAA) e também presidente da Câmara do Crato, Joaquim Diogo, afirmou: “É algo que nos preocupa. Estaremos disponíveis, em conjunto com a tutela [Governo], em conjunto com a empresa, para poder encontrar soluções, para que este serviço se possa manter regular e as pessoas possam continuar a ter acesso aos jornais, às publicações. É algo que nos preocupa muito, o acesso à informação acima de tudo.”
No Baixo Alentejo, o presidente da CIMBAL, António José Brito, igualmente autarca em Castro Verde, foi mais duro. Disse à Lusa que “O Governo tem a responsabilidade de resolver esta situação e é pouco compreensível que se escude nos ‘mecanismos concorrenciais’ para deixar surgir esta ameaça”. Importa recordar que a CIMBAL celebrou em 2024 um contrato com a Vasp no valor de 38 mil euros por 1095 dias, três anos, para a distribuição do seu jornal “Diário do Alentejo”, que é o único jornal público do país, por mais estranho que isso possa parecer.
Governo entre a pressão e os “mecanismos concorrenciais”
Do lado do Executivo, o ministro da Presidência, Leitão Amaro, reagiu publicamente à decisão da Vasp, sublinhando que o Governo está atento ao impacto territorial, mas lembrando que a empresa atua como “um monopolista” no mercado da distribuição de imprensa. Recordou também que o Estado tem apoiado rotas da distribuidora ao longo dos últimos meses através de “acordos pontuais”, rejeitando, no entanto, qualquer leitura que transforme esta decisão numa forma de condicionar a ação do Governo.
Leitão Amaro afirmou que “não vejo informações dessas como formas de pressão” e deixou um aviso: se fossem, “era mau caminho” e não teriam qualquer efeito. Em resposta às declarações da Vasp, reforçou que qualquer solução que envolva esforço financeiro por parte dos contribuintes, em nome da coesão territorial e do acesso à comunicação social, “deve envolver sempre mecanismos concorrenciais”. Ou seja, não haverá apoios automáticos.
Direito à informação, sim. Cheque em branco, não.
No essencial, a questão é simples. Sim, as populações têm direito ao acesso à informação prestada pela imprensa nacional. Sim, as instituições governamentais devem tentar solucionar o problema da melhor forma possível. Mas não, definitivamente não, o Estado não se deve deixar pressionar por uma empresa que detém o monopólio da distribuição de jornais em Portugal e que, mesmo que “tenha dificuldades financeiras”, continua a apresentar resultados positivos.
O que está em causa não é apenas a defesa do Interior ou o acesso à informação. É também saber se os contribuintes devem continuar a financiar sem discutir um modelo de distribuição monopolista, pouco transparente e usado como arma negocial sempre que a conta aperta. E aqui, aparentemente a Vasp já ganhou, mas quem pode voltar a perder são os contribuintes.
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Nota: artigo corrigido a 09-12-2025 relativamente aos números da APCT, que apresenta uma tabela sem legendagem compreensiva e que facilmente induz em erro. Os números apresentados nessa tabela são valores diários e não para a totalidade do trimestre como assumimos.