Jobs for the boys: Governo entrega cinco vice-presidências da CCDR Alentejo a nomes do PSD

Acordo PS/PSD garantiu a presidência da CCDR Alentejo ao PS, mas a máquina do Governo encheu o órgão de dirigentes ligados ao PSD.

A fotografia oficial da nova CCDR Alentejo podia ser vendida como um exemplo de equilíbrio institucional. À frente, Ricardo Pinheiro, ex-autarca socialista de Campo Maior, eleito presidente após um processo indireto envolvendo autarcas de toda a região. Ao lado, Aníbal Reis Costa, também do PS, confirmado como vice-presidente eleito pelos presidentes de câmara. Só que, quando se afasta o zoom, a composição muda: todos os lugares de vice-presidência designados pelo Governo foram entregues a quadros alinhados com o PSD, a começar pelo próprio vice-presidente eleito pelo Conselho Regional, Roberto Grilo.

No centro desta história está a Resolução do Conselho de Ministros n.º 47-A/2026, publicada a 27 de fevereiro em Diário da República. O diploma concretiza o modelo previsto na Lei Orgânica das CCDR: um presidente eleito por um colégio de autarcas, dois vice-presidentes escolhidos em eleições internas (um pelos presidentes de câmara, outro pelo Conselho Regional) e cinco vice-presidentes designados pelo Governo, sob proposta das tutelas da Educação, Saúde, Cultura, Ambiente e Agricultura e Pescas. No papel, parece um exercício de desconcentração e participação. Na prática, abriu a porta a um clássico “jobs for the boys” em versão regional.

Um acordo nacional, uma eleição de faz-de-conta

O contexto político já vinha escrito antes de qualquer voto. Em dezembro, foi noticiado um entendimento entre PS e PSD para dividir o país em cinco CCDR: Norte e Centro para os sociais-democratas, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve para os socialistas. No Alentejo, a “eleição” de Ricardo Pinheiro decorreu sem surpresa, num processo em que havia candidatura única e um colégio eleitoral de 1.284 eleitos locais. Vários partidos denunciaram o cenário antecipado. O PCP recusou participar, considerando que o modelo representa “um passo mais na governamentalização das políticas regionais” e um novo adiamento da regionalização. O Chega classificou o exercício como “eleições pré-combinadas”.

Mesmo dentro do PS houve incómodo. Dirigentes socialistas na região criticaram o facto de as presidências das CCDR serem decididas nas direções nacionais, apontando o risco de captura das estruturas regionais por lógicas partidárias e não por debate público no território. Ainda assim, o calendário avançou: eleição sem alternativa para a presidência, validação de Aníbal Reis Costa como vice-presidente eleito pelos presidentes de câmara e, a seguir, o momento em que o PSD entra em força no desenho final da casa.

É aí que Roberto Grilo, economista natural de Elvas, surge como peça-chave. Ex-presidente da CCDR Alentejo entre 2015 e 2020, regressou primeiro por nomeação governamental como vice-presidente para a Agricultura em 2025, já com o atual Governo em funções. Em 2026, foi eleito vice-presidente pelo Conselho Regional. Em informações avançadas pela Agência Lusa, fonte social-democrata tinha sido clara: “Roberto Grilo é o candidato indicado pelo PSD para vice-presidente da CCDR do Alentejo, a ser eleito pelo conselho regional”. O acordo PS/PSD garantia ao PS a presidência. Mas, desde logo, a vice-presidência “do Conselho Regional” foi assumida como quota do PSD.

Cinco vice-presidências, um partido

Depois de fechadas as eleições internas, entrou em cena o Conselho de Ministros. A mesma resolução que confirma Aníbal Reis Costa e Roberto Grilo como vice-presidentes da CCDR Alentejo lista ainda cinco nomes designados diretamente pelo Governo: Henrique Sim-Sim (atual vereador da coligação PPD/PSD.CDS-PP.PPM na Câmara Municipal de Évora e vice-presidente na Comissão Política Distrital do PSD de Évora), Sónia Ramos (candidata à presidência da Câmara Municipal de Estremoz que não foi além de um terceiro lugar), Marciano Lopes (militante histórico do PPD/PSD em Beja), Helena Cortes Cavaco (vogal na Comissão Política Distrital do PSD de Beja) e Silvino Alhinho (vogal na Comissão Política Distrital do PSD de Évora). As biografias oficiais somam cargos na administração pública, experiência em áreas como saúde, segurança social, desenvolvimento rural, educação e consultoria agrícola. Somam também percursos claros na órbita social-democrata.

Sónia Ramos será vice-presidente do Ambiente. Foi diretora do Centro Distrital de Évora da Segurança Social, exerceu funções de deputada à Assembleia da República nas XV e XVI legislaturas e apresentou-se como candidata à presidência da Câmara de Estremoz nas autárquicas de 2025. António Marciano Lopes, que acumula décadas na administração regional de saúde e em organismos ligados às políticas de combate à toxicodependência, sempre em funções de direção, assume a vice-presidência da Saúde. Silvino Alhinho construiu o seu percurso na escola pública e na administração educativa, com funções de direção em agrupamentos e centros de formação será vice-presidente da Educação. E Helena Cavaco consolida a ligação ao setor agrícola, com trabalho em consultoria, organizações de produtores e formação na fileira olivícola foi designada para a Agricultura.

Henrique Sim-Sim assume a vice-presidência da pasta da Cultura. Vem da Fundação Eugénio de Almeida, depois de anos a conceber e coordenar projetos financiados nas áreas da educação, cultura, ambiente e desenvolvimento rural. A sua entrada na CCDR surge num momento em que uma petição pública, subscrita por artistas, autarcas, académicos e agentes culturais, apelava à continuidade de Ana Paula Amendoeira no cargo, considerando a sua permanência “fundamental para a estabilidade institucional” e para a relação construída com a comunidade cultural do Alentejo. A última atualização da petição, realizada às 11h00 de 24-02-2026, revelava 1.335 assinaturas.

Em todos os casos, o Governo sublinha a experiência técnica e a ligação ao território. A resolução lembra que a Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública foi ouvida e deu parecer favorável às designações. Falta-lhe apenas uma linha, que a realidade trata de preencher: no final da operação, a CCDR Alentejo passa a ter um presidente socialista rodeado por uma maioria de vice-presidentes com ADN social-democrata, incluindo o vice-presidente eleito pelo Conselho Regional.

Em teoria, as CCDR são serviços desconcentrados da Administração Central com autonomia administrativa e financeira, responsáveis pela gestão de fundos comunitários e pela execução de políticas de desenvolvimento regional. Em teoria, o novo modelo aproximaria decisões dos territórios, ao dar um papel mais forte aos autarcas e conselhos regionais.

Porém, o que fica registado é outra coisa: um presidente socialista escolhido numa eleição sem alternativa, um vice-presidente eleito pelos presidentes de câmara igualmente do PS, um vice-presidente eleito pelo Conselho Regional assumido como quota do PSD e cinco vice-presidentes designados pelo Governo com perfis políticos e institucionais alinhados com a área social-democrata. Sete lugares de topo, com o PS a segurar o rosto mais visível, mas com o PSD a controlar a máquina debaixo desse rosto.

Chama-se a isto “desconcentração administrativa” e “reforço da participação regional” nos textos oficiais. Vista à lupa, no entanto, a nova CCDR parece menos um laboratório de poder regional e mais a versão atualizada de um velho padrão: um jobs for the boys cuidadosamente negociado entre PS e PSD, com especial retorno para o partido que neste momento ocupa o Conselho de Ministros.

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