RTP Memória recupera “Alentejo sem Lei” no ciclo de homenagem a João Canijo

Entre sátira, violência e paisagens áridas, “Alentejo sem Lei” volta ao pequeno ecrã como peça de culto na homenagem a João Canijo.

A 29 de janeiro, Portugal despediu-se de João Canijo, que morreu em casa, em Vila Viçosa, aos 68 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Assumido como um dos nomes maiores do cinema português, o realizador tem sido lembrado num ciclo especial de homenagem que passado pela RTP1, RTP2, RTP Memória. É neste contexto que a minissérie “Alentejo sem Lei” regressa ao ecrã, numa oportunidade para revisitar um objeto televisivo de meados da década de 1990, que ajuda a compreender os caminhos iniciais da obra de Canijo.

A produção, emitida em três episódios entre hoje e domingo, sempre à meia-noite na RTP Memória, parte de um cenário histórico preciso: “Após as guerras liberais, o Alentejo era uma região pouco povoada e quase selvagem, afinal o cenário ideal para esta história de violência e brutalidade, protagonizada por homens que vivem à margem da lei”, lê-se na sinopse. No elenco surgem nomes como Rita Blanco, Paulo Branco, Fernando Luís, Nuno Melo, Miguel Guilherme, António Feio, Herman José, entre muitos outros, reunidos num exercício televisivo que hoje se observa também como retrato geracional de atores que se tornariam centrais no audiovisual português.

Visto à distância de três décadas, “Alentejo sem Lei” é frequentemente lido como um objeto de época. Um olhar crítico recente sublinhava que a série recorre a “paisagens áridas e estéreis, intensificadas pelo tom sépia da fotografia”, reforçando a imagem de uma região “fora da lei” e reproduzindo códigos visuais dos westerns americanos e dos spaghetti western. Ao mesmo tempo, apontava limitações na direção de atores e na construção dos diálogos, mas concluía que a minissérie funciona como “um testemunho de como a televisão portuguesa evoluiu nos últimos 30 anos”. Entre a curiosidade histórica e a revisão crítica, o regresso da obra à RTP Memória coloca em diálogo o Alentejo televisivo dos anos 90 com o olhar mais exigente dos espectadores atuais.

O ciclo de homenagem a João Canijo na RTP inclui ainda os longas-metragens “Mal Viver” e “Viver Mal” e o documento de bastidores “Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor”. “Mal Viver”, vencedor do Urso de Prata em Berlim, passou na RTP1 a 31 de janeiro, tal como “Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor”, exibido nesse mesmo sábado à noite e agora acessível sobretudo através de gravações automáticas. Já “Viver Mal”, descrito como obra paralela que acompanha os núcleos familiares hospedados no mesmo hotel, chega à televisão na RTP2 na madrugada de 7 para 8 de fevereiro, à meia-noite, prolongando para o pequeno ecrã o díptico que redefiniu a visibilidade internacional do cinema de Canijo.

Fora do serviço público, a homenagem estende-se ao TVCine Edition, que no domingo, 8 de fevereiro, apresenta uma retrospetiva contínua da filmografia do realizador. A maratona arranca às 02h10 com “Três Menos Eu” e percorre títulos como “Sapatos Pretos”, “Ganhar a Vida”, “Fátima”, “É o Amor”, “Mal Viver”, “Viver Mal”, “Sangue do Meu Sangue” ou “Noite Escura”, terminando de novo às 02h10 com “Raul Brandão Era Um Grande Escritor…”.

Fontes: RTP, TVCine

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