Foram cerca de 20 minutos de troca de argumentos como se estivessem na AR. A reunião da Câmara Municipal de Évora realizada ontem à tarde, 8 de janeiro, voltou a transformar-se num palco de debate político de âmbito nacional, com a discussão entre vereadores do PSD e CDU a ultrapassar largamente a gestão autárquica. Desta vez, o tema foi o assinalar dos 40 anos da adesão de Portugal à União Europeia (na altura CEE, que se concretizou a 1 de janeiro de 1986), que, como se sabe, coloca ambos os partidos em posições frontalmente opostas.
O vereador da coligação PPD-PSD/CDS-PP/PPM, Henrique Sim-Sim, evocou a adesão europeia como um momento estruturante para o desenvolvimento do país e do interior, sublinhando o impacto dos fundos comunitários na modernização de infraestruturas, na coesão territorial e no reforço de oportunidades para regiões como o Alentejo. Na sua intervenção, defendeu que a integração europeia representou um salto qualitativo para Portugal, rejeitando leituras que a reduzam a um processo de perda de soberania.
A resposta da CDU surgiu pela voz de João Oliveira, que voltou a enquadrar a adesão à CEE como um processo marcado por dependências externas, constrangimentos à política nacional e efeitos negativos na produção e na soberania económica. O vereador comunista insistiu que muitos dos problemas estruturais do país, incluindo no mundo rural e agrícola, se agravaram no contexto da integração europeia, apontando responsabilidades às opções seguidas ao longo das últimas décadas. E acusou o PSD de querer celebrar aquilo que considerou ser um prejuízo direto para a região, questionando “o Sr. Vereador Henrique Sim-Sim, com este voto, está a querer celebrar a perda de 700 milhões de euros de fundos europeus pelo Alentejo no próximo quadro financeiro plurianual?”.
Na sua intervenção, o vereador comunista sustentou que as opções europeias mais recentes penalizam o Alentejo, enquanto outras regiões do país são reforçadas, acrescentando que “aquilo que o seu governo nos está a apontar para a frente é ter o norte, o centro do país, as regiões do oeste e a região de Setúbal consideradas como algumas das mais pobres e com reforços orçamentais […] e com o Alentejo prejudicado em 700 milhões”.
João Oliveira foi ainda mais longe, classificando o voto do PSD como uma legitimação desse cenário, afirmando que “o que o Sr. Vereador aqui nos traz é uma saudação a essa desgraça que está ser imposta ao Alentejo”, justificando assim o voto contra da CDU.
O presidente da Câmara Municipal de Évora, Carlos Zorrinho, procurou encerrar a discussão com uma nota de enquadramento político, lembrando que, independentemente das leituras partidárias, Portugal fez um percurso indissociável da União Europeia e que o desafio atual passa por saber usar esse espaço comum para responder aos problemas concretos das pessoas e dos territórios. Uma intervenção que procurou recentrar o debate, sublinhando a necessidade de olhar para o futuro sem ignorar a complexidade do passado europeu do país.